Domingo, Outubro 28

mas o mormaço chegou, e a tarde passou num suspiro de calor.

em tempos de falta de tempo, uma agenda é o que me separa do analfabetismo. ah se nem tudo fosse mecânico e moderno e digitável. a palavra me universalizou; pelo lado bom, universalizou a si também. mas ainda ando armada contra essa tecla sem personalidade cinza&preta. me sinto meio para trás, às vezes. espero que meus gestos falem tão alto quanto não o faz minha voz. às vezes tenho medo de ficar igual ao avô do oscar, com um sim e um não nas mãos, mudo. quando estudei o dadaísmo, lembrei dele. do que a guerra fez com ele e, depois, da geração beat. o sentido de tanta dor, da barreira do formalismo e do pudor. quantas sensações perdidas, deus!, e quantas repetidas..

recado ao príncipe do sol, aquele que é moreno ciúme e mar.
[sim, o da boca cor de maçã]


o desejo não deve significar traição, necessariamente. é bom estar perto de pessoas instigantes, pessoas a quem se quer abraçar e com quem é sempre possível se sentir vivo, com que se imaginaria orgias intelectuais ou não. não me entenda mal, leãozinho. a curiosidade é a máquina que [me] move. para alguns outros, a necessidade. a gente precisa viajar, correr mundo. como essa semana da biologia, uma viagem louca sabe. sobre não largar olhar-do-mundo, o seu olhar. sobre tornar pessoal tudo aquilo que faremos. mesmo porque tudo só começa sendo pessoal.
ontem à noite pensei de novo sobre. em como todo mundo quis esquecer e seguir em frente. em como eu não esqueci. ainda quero gritar, porque ainda dói. você se lembrou de laranja mecânica. tantas coisas eu queria dizer anter [e agora ainda] das memórias se quebrarem. quando eu ainda conseguia pensar sem censura. eu gosto de falar sobre isso com ele, parece simples ou fácil. ele olhou e disse não sei como você não consegue resolver tudo isso conhecendo tão bem a si e aos outros, luna lyra. e também às vezes me dói que uma pessoa que nasceu tão pura, nem boa nem má, alguém assim sincera sempre e antes consigo e, com o tempo, nem tanto com os outros.. como puderam te deixar tonta assim, como puderam te ensinar a mentir e te impor uma moral, que é a última coisa que te cabe? é pesado e hediondo, eu digo! - ele disse.
eu digo que quero um pedido de desculpas e não sei se quero mesmo, o que é que eu quero. eu disse que não me sinto vítima de uma conspiração, que todo ser humano tem direito a escolher, mas o direito é por vezes um dever. e ele disse que não porque quando a gente é novo não tem muita autonomia. mas que escolha não é permeada pelos limites, internos ou externos? sempre é possível escolher, e só é porque há limites - não havendo, seriam infinitas as possibilidades e acabaríamos por nunca escolher coisa alguma, é que a mão é tão mais vagarosa que o pensamento.. mas penso que falar agora será [mais] fácil.

Luna
às 09:24

Sexta-feira, Outubro 5

dia melancólico.. queria alguém para conversar conversas profundas. queria a cumplicidade dos estranhos. livrar-me desses olhares conhecidos, da sua sensibilidade quando gritar minhas queixas e incertezas. hoje não foi como se esperava. ah se eu entendesse dos reveses da vida. o que é que pode ter entre o céu e a terra que não suspeitam meus vãos olhos? ah se se pudesse ter mais que uma transa sensual, como a coisa mais profunda que. não, eu tenho. é só que odeio quando a amplidão é maior que o salto e chão me falta..

ontem foi horrível. mas tudo bem, moço, posso sim fingir tristeza por todas as horas so-zi-nha. qual a sua, hum? "olha, não queria dizer, mas é preciso [claro, sr. mártir, conte-nos seu drama..]. você não pode ficar assim à toa nesses momentos, eles são coisa séria, não dá para ficar brincando de pierrot. mas você está chateada porque eu disse isso? e afinal, o que poderia haver de tão cruel e assustador?" não, não, mas é claro. você está certíssima, estrela da vida inteira! como pude ficar tão só triste e assustada em momento tão inapropriado. me perdoe, senhor, serei melhor e maior que eu na próxima chance.. mas sabe, seria encantador da sua parte me ajudar, indo morrer bem longe daqui hoje.

e sabe o que mais odeio em telefones?
esperar por uma chamada perdida que não chega. ou uma mensagem dizendo "apesar de tudo ontem, boa sorte no teste.''










notas do diário:

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ontem escrevi de novo no esconderijo [aqui?]. foi bom sair do ponto morto. ontem tomei capuccino e fiquei acordada até tarde. queria sair desse mundo objetivo, de objetivos. gosto de ouvir música sem ter que passar para a próximas por causa do pouco tempo ou do tanto.
_
nova teoria bizarra da natália: acho que por detrás do nossos olhos tem uma bola de [pelos?] cílios e ciscos..
AH! quem se importa com que aula teve hoje? eu me importo com a linda lua cheia que perdi, com a leveza insustentável que minha alma tem. ou com o choro do garoto que quer voar.
outras coisas radicais que a natália quer fazer e que eu acho radicais também:
1. andar solta no ônibus [ainda mais se for o conj. ceará-papicu]
2. fazer pipoca sem tampa
3. fazer palavra-cruzada de caneta
_
hoje é sexta-feira, vinte e pouquinho de setembro.
dia de ver filme
até de madrugada
- quero sociedade dos poetas mortos.

hoje eu e natália tivemos uma discussão bizarra sobre o que é escola. tive uma pontada de decepção, e ela, sentindo isso, ficou triste ou me achou rebelde sem causa - ou pior, causa boba. senti-me peixe fora d'água mais que nunca.

mas tudo bem tudo isso, pois hoje eu sou a srta. uáfou, e ela é inabalável. e ela é apaixonada por sobremesas e sonha em ser abduzida; nunca perde uma lua cheia e sempre fala muito rápido quando está feliz. Não se preocupem, garotos perdidos, com a visão desoladora que têm agora aqui. isso é mero disfarce, como a concha; mas se chegarem mais perto, ouvirão minha canção.

- cólica diz bom dia maliciosamente para luna
- luna não sabe o que responder, diz apenas ai.
_
parece que se tanto faz o lugar, é comigo. e ah, príncipe, você só pode consertar quase tudo. resolvo problemas de física e tenho sonhos de conversas que queria ter [acordada]. gosto do Dustin Hoffman em a primeira noite de um homem; ele não sabe falar tanto quanto eu. mas ele acaba feliz depois de um cedê inteiro do Paul [simon] e do Art [garfunkel]..
_
CARAMBA. quinta é o fim dos tempos que nunca chega. acho que se eu propusesse suicídio coletivo no aldeota haveria algumas [muitas?] adesões. ainda mais nessa altura do ano, ó. acho mesmo uma forma de arte [ainda que macabra] a capacidade da escola de juntar aulas tão ruins em um único dia e não sobrar aulas boas suficientes para terem um outro dia só delas. nessas horas, o mundo é mesmo imoral. [ou é amoral? ou os dois?]

.........mas caso me perguntem, vou indo bem. na medida do possível [?]. só é uma pena perder todo esse tempo sem filmes viagens livros música amigos, sabe, essas coisas legais da vida.........

Luna
às 13:31

Terça-feira, Setembro 25

minha cachorrinha late para o vento. mas eu acho que são para as almas que ele carrega. é que dizem que os cães vêem coisas.
faz tempo que não escrevo nada livre. só mensagens teleguiadas. o 3o me castrou. mas tudo bem, eu já decidi que quando casar e for ter um chá de panela, minha lista vai estar num sebo legal e vou querer livros de arte. daí vou recortar as gravuras e fingir que são quadros.., colar na parede.
ouvir belle&sebastian: tarefa de vida [!]

belle&sebastian me faz pensar em viagens de carro em conversíveis e naqueles flashs de cinema quando passam várias semanas em imagens rápidas com música de fundo mostrando como tudo-ficou-tudo bem. EI: quando foi que 20 questões de química valeram mais que um beijo ou uma conversa com um estranho num lugar inusitado? espero que não me sussurrem ho-je. e agora é cake. ah, cake é pra dançar. dançar. dançar. como se pode viver para uma única coisa? se eu fosse viver de uma coisa só, vivia de amor, que é a única coisa que é tudo em uma só.

estou tentando muito expremer algo de minha pobre cabecinha pobre. de marré marré? não, de vida [por ora]. sabe do que a escola precisa? de música, de água. pra gente nadar. pra gente [se] inspirar [ar ou som]. pensando hoje no que é sair do colégio. parece, afinal, muito triste que os professores tenham desistido de nós. tão ávidos por conhecimento que somos, triste pensar que de trinta professores esse ano, vou lembrar com carinho de uns três. acho que a escola devia ser a céu aberto. o nosso teto é o nosso limite. e como poderemos descobrir algo além do que nossa vã filosofia sabe sobre o que há entre o céu e a terra se não podemos sequer sentir o ar. digo, temos os condicionados, mas não estou muito satisteita com eles.. vou dizer o que foi: écáti e um uau em alguns bons dias, tipo a quarta, a quarta era sempre genial. e será por mais uns dois meses. é quando a gente pensa em tarefas de vida e não de casa. o dia em que preto é só uma cor, não uma raça. meu irmão disse que quando eu não passar vou querer ter estudado [mais], eu disse que quando passar, estarei feliz com o que catei pelas ruas.

Luna
às 22:15

Sexta-feira, Maio 18

carta de muito tempo atrás.





vinte e seis de março de dois mil e sete

me falaram saudade hoje -
é que todo mundo diz
mas acho que nem sabem:
é que facilmente saudade é

solidão
ciúme
desejo de possuir
medo

pensei em nuances de cores. mas é que a cor da saudade de verdade é mesmo o róseo cor-de-goiaba.
PORQUE ah, deus, mas que cor mais apropriada que a cor das maçãs coradas da face? =)




Querido Lênin,

estes dias têm sido tão estranhos. como as pessoas podem ser tão paradoxais? disseram-me assim:
- por que vais? por que não ficas?, e se vais, diz-nos o porquê. Disse eu que as pessoas têm afinidades, fases e pensamentos diferentes. minto. pensei [pareceu resposta de adulto, fiquei constrangida..]. de mim não sai um som que seja. e quando saiu, foi feito de forma incongruente. como se eu não soubesse bem o que falar - e quando.
tenho tanto medo, lênin, dos bichos-homens que povoam minha cidade, das crianças que se tornarão cegas e inexatas, do futuro tosco que me pregam polido.
[...]
as pessoas [essa entidade superior] choram tanto quanto [eu], bem sei. mas acredito que a insinceridade é bem mais amarga que minhas palavras.
quero QUERER.
quero querer..
e elas querem que eu queira também.
tanto desejo, nenhum amor.
ando vazia quase um dia inteiro, meu amor.
salvo ainda aqueles a quem tive a sorte de contar um segredo. e já não bastando ser-me a vida um jogo de azar, tenho menos força agora para formar palavras e di-vi-di-las.




{queria escrever poemas e
andar de bicicleta

- ter um jasmim bonito e saber cuidá-lo, também}

Luna
às 22:58

Terça-feira, Maio 1

ô maria fumaça, na praça eu vi. saudade da infância foi o que ela disse. era como ter um corpo pequeno para uma alma grande. não cabia, não cabia. e então, por que ninguém ouvia?
onde está você? e maria, estou cá dentro de nós. se olhar o sol, ele, quem sabe, vai me trazer, quem sabe ele me trás, príncipe do sol. e lembrou do último imperador e seu gigantesco mundo miniatura. imagina não saber o que é uma bicicleta [!]
ela queria uma noite de estrelas. e o som de dentro da concha. a concha onde cabia o universo. e o pequeno príncipe apareceu, ele e a raposa. disse no ouvido dela que fosse para o leste. foi. era onde o mar ficava e onde o sol nascia. onde as pessoas passavam o dia sentadas e os olhos fechados. o império dos grandes templos, quietos.
quis saber em que floresta se escondia o amor-perfeito. era roxa, branca, que cor? e as pétalas? porque onde queria o ato, tinha o espírito. e dentro do lar, revolução. teve que sair de casa, achar o tal farol. aquele que ilumina como o próprio nome. mas achava que o farol tinha mais luz que ela mesma, é que nas horas difíceis as convicções falham. que é no alto de um penhasco que a alma saltaria [na amplidão]. e deus, tinha que haver em algum lugar uma laranjeira prateada. que era para ter certeza de que a lua [luz?] ainda existe. tão difícil esperar o que não sabemos. e se houvesse vizinhos perto do farol ou ainda que os bêbados marinheiros cantassem, o canto dos loucos invadiria a janela, apalpando a sua paz...
eles cantariam "o vento quis bater-me à porta. foi que eu teimei.. e o dia fez-se um eterno mormaço."
estou com saudade de fazer sentido. de fazer samba e amor a tarde inteira.
mas eu vejo de longe a luz do farol, será mesmo dele? sim, eu sei que o chico tem razão. no farol eu ouviria o dia todo aquele cd dele com o ennio morricone.
lembrou então do que o profeta havia dito. que a comida era sacra e que o trabalho era para que nós vivíamos. de onde vinha o prazer e o poder caber dentro de nós.



pois esta é a carta que seria surpresa e que veio da saudade de não-se-sabe-o-quê.

Luna
às 13:21

Quarta-feira, Abril 18

vontade de palavras bonitas.
de perfurar a gelatina. de ouvir MÚSICA.
quis lembrar aquele haikai que você escreveu um dia. sem nem sabe que haikai era poema-pílula. vice-e-versa eu.
vou escrever depois, agora só ouvir o mundo. que o dia é lacônico.

Luna
às 21:52

Segunda-feira, Março 19

Cara Senhora A.,

hoje é dia 15 de março de 2007, e, embora lhe pareça absurdo que por tanto tempo tenho estado calada, venho lhe contar que há mais ou menos um ano me perdi.
venho reclamar para a senhora, porque sei de sua importância e também de sua misericórdia para com os amadores.
estes dias que seguiram foram tão angustiantes, senhora, e já não sei mais a quem recorrer. reclamo a vossa senhoria também por termos há mais ou menos um ano atrás, coincidentemente, feito um pacto [que na época considerei bastante conveniente e que hoje já não me sei mais..]. é principalmente sobre ele que quero lhe falar.

as coisas me acontecerem de tal forma que só pude não me sentir alheia a minha própria vida tempos depois. conto-lhe que esse pacto maldito, que só poderia ser feito sob hipnose ou alguma bruxaria semelhante, tem-me feito refém de meu próprio corpo. que por mais que eu ande, não consigo me afastar de mim. eu sei eu já sei, tu me dirás que tendo feito já não haverá mais volta. mas eu sou uma pessoa que acredita em ciclos, de todos os gêneros. tu me dirás ainda que tendo posse de meu corpo e de minha alma, não posso recusar culpa alguma sob a alegação de tontura. eu não sei, senhora A., é que imaginei que sendo você uma mulher, porque o Amor não poderia ser outra coisa senão esse ser melodramático e cheio de conclusões indizíveis e mesmo ininteligíveis que eu me sinto agora [...]

hoje já não é mais 15 de março de 2007, hoje é 18 de março, dois anos atrás. demorei tanto a escrever, porque nada me é mais difícil agora do me expressar.
"escrever. expressar graficamente por meio de símbolos padronizados com o intuito de comunicar, organizar e perpetuar.
escrever é a poesia que me alumia, a geniosidade mais puramente intelectual, meu único credo, a certeza de qye, no caminho [o meu, não o de Carlos], diante do choro e do desespero, terei ao menos o consolo e a redenção introspecta do meu próprio ser. antes de comunicar aos povos, aos indivíduos, comunico a mim mesma. esse Senhor-eu que é meu âmago, antes de todos [e mesmo para que a haja outros em minha consciência], tem fome de poesia, de amor, de intensidade; e, antes de alimentar qualquer outros, busco, [quase] instintivamente por um pão tão doce que me esqueça do amargo-férrico sangue que transbordava do meu corpo, em dor; tão doce que me sugue toda razão e consciência, que me largue e me deixe só e tão somente com meu amado conhecido [meu único pertence], tão desenganada [eu] que o tomo por meu quando sou eu que estou possessa.
[...]"













... era uma carta de reclamação ao Amor que me levou a poesia. mas agora já nao importa mais. acho que sentimentos quando não sentidos na hora certa perdem o gosto, como que estragados sabe. só consigo pensar que quando alguém diz 'pra sempre' é como definir um dia para o fim. pra sempre quer dizer até o dia da morte do primeiro. que o segundo doa só, porque um pra sempre sempre implica uma agonia solitária e eterna pós-morte. mas de que vale um pra sempre se eles se vão e desistem no meio. odeio ODEIO conflitos de interesses, crise dos quarenta e promoções no trabalho. não parece um monstro tudo isso. acho que aqui tá tudo meio confuso, porque eu estou confusa, acho. mas é que nessas horas dá um medo e uma vontade de não reescrever mais nada.

Luna
às 11:20

Terça-feira, Fevereiro 27

dia com gosto de chuva. chuva é coisa nova.
vontade de por aqui o discurso gravado sobre o que é alma.
vontade de conhecer gente nova. lugares novos também.
ando com saudade dos amigos, sabe. é que vezenquando a gente esquece.

Luna
às 21:17

Sexta-feira, Fevereiro 23

e dizem que sou louca por pensar assim, mas louco é quem me diz [que não é feliz] que eles não existem:



21/05/2004
Permitam-me dizer...
Eu sou um alienígena, mas, por favor, não me levem pro Ratinho!
Ps: eu tenho provas.

poisé, mas vejam só como o mundo gira e vezenquando a gente se depara com um. e nem sabia. =)

Luna
às 16:12

Domingo, Fevereiro 11

vi hoje três estrelas em carreirinha lá no céu.
tinham nome. marias eram.
pois veja só que dançar é muito bom. de frente pro mar-grudado-com-o-céu.
vou morar num farol, aí quando você desistir dessa vida certa que te acomete vezenquando você vem me ver e daí nunca mais você vai embora. =)
e depois um barco. e depois uma casa linda vermelha com janelas brancas que nem que nem todas as cores juntas.

eu sou o que o pedro acha que é: a garota das idéias. ha-ha.
durma bem, pan.

Luna
às 21:56

Terça-feira, Janeiro 30

lórilórilóri feliz. quem sou eu se não tu?

[...] mas por um instante - ah como Ulisses gostaria de saber - feliz. Porque, se não expressara o inexpressível silêncio, falara como um macaco que grunhe e faz gestos incongruentes, transmitindo não se sabe o quê. Lóri era. O quê? Mas era.

- que hoje 'ah, deus dará[deu].
- é como 'um deserto e seus temores.
- não. é como morrer. 'Depois de morrer não se vai ao paraíso, morrer é que é o paraíso'
- o amor é. e eu oceano. e eu piegas. mas é que tudo parou, é que foi quase uma dor.
- quem jamais te esqueceria, saudoso poeta? eu que não.
- porém lá não estavas nua. estavas nu-vem.
- estou apaixonado.
- hein?
- uma menina chamada terra. ou era lua.

Luna
às 23:16

Segunda-feira, Janeiro 22

e ontem era dia de lua [nova] e um carrossel debaixo d'água, como se fosse o parque encantado de atlântida.
lua, a noite inteira. ia pedir aos bobos para não o serem, que eu mesmo só procurando uma bandeira no sorriso que me deram.

sorte minha conhecer gente com superpoderes.


afim de ficar onde estou. sem grandes revoluções moderninhas.

Luna
às 16:11

Segunda-feira, Dezembro 25

em babylon.
acho que raras vezes eu senti tanto vinicius quanto hoje.
eu falaria em terceira pessoa, mas há coisas que não pode nem quer deixar de assumir para si.

o natal mais feliz.

Luna
às 23:13

Sexta-feira, Dezembro 22

ms parafraseando sobre Pessoa e os românticos.

"querer a lua como se houvesse forma de a obter
e esquecendo que não se pode ter um bolo sem o perder"

acho que essa me serviu hoje. queria que o mundo soubesse que ele é um gênio. ninguém sabe, sabia?
se tornando uma bíblia para mim também, sem querer.





vamos para babylon?

Luna
às 00:56

Domingo, Dezembro 3

sonhando revoluções
vivendo o pão-nosso-de-cada-dia

vou juntar uma trouxinha

virar mendigo buda astronauta

morrer no mar
viver na floresta


o mundo é uma enzima desnaturada gigante.

Luna
às 08:47

Quinta-feira, Novembro 2

no fim todos os sonhos são de libertação. todas as canções de amor.

[compartilho do sonho de ícaro
e vou para o mar
pois é lá que ele está

não há lirismo que não seja alado.]


quero uma carta [bonita] de aniversário. 'enfim os dezesseis' vai passar.
quando a professora de história perguntou se acreditava em traição, disse não. deveria?
traição é palavra daqueles que guardam. odeio pesos nas mãos. talvez tenha um cofrinho em casa, mas só.
[eu nasci para voar. quero ser como aquele balão de gás nunca vai ficar no chão por si só]





"Picture yourself in a boat on a river
With tangerine trees and marmalade skies
Somebody calls you, you answer quite slowly
A girl with kaleidoscope eyes

Lucy in the sky with diamonds
Lucy in the sky with diamonds
Lucy in the sky with diamonds





Luna
às 16:12

Quinta-feira, Setembro 28

a gente se ilude achando que não há mais coração.

Luna
às 13:05

Sexta-feira, Setembro 15

Fairy Tales are more than true: not because they tell us that dragons exist, but because they tell us that dragons can be beaten

.me sentindo bem hoje acho que o show do ney aqui [meu amor eterno] e a priscilla em fortaleza e a natália na nossa sala será algo bonito.

Luna
às 19:02

Segunda-feira, Setembro 4

quando me rogaram que em breve, amigo, uma mudança iria acontecer pensava nunca poder ser vista. que já fora ou jamais seria.
pois deixa eu te dizer, dizer para o povo mesmo, que eles é que precisam ouvir:

Ontem os ventos mudaram de rumo. e mesmo a lua ficou muda. ontem a mudança aconteceu. e como que nunca pensei dizer amor, ontem nem medo, vejam só.
Ontem ouvi de um gato que descansa de olhos fechados [e para que vocês saibam que os gestos têm significados vários, eu descanso de olhos fechados], vi muita coisa ontem, vi meus dezesseis vi as canções fazerem sentido vi o coração pulsar a peito aberto - e quão incrível não me foi, hum. quão. se um dia puderem, acho que é o meu conselho de testamento - já que a vida é sempre a iminência da morte [embora sempre tão alegre]:
que um dia vocês senhores possam ver um coração no peito nu, possam tocá-lo e ainda sim, não machucar.

a mais, digo apenas que um violão é [quase] tudo nessa vida [de meu deus, diria a bola].




posso só mais uma coisa? nosso hino é tudo aquilo que não é dito. que não pode ser. e quando digo nosso, esqueça o povo - que deles nos havemos depois.

Luna
às 21:05

Sexta-feira, Setembro 1

"O que eles deixaram foram estes três postulados:
importante é a luz, mesmo quando consome;
a cinza é mais digna que a matéria intacta
e a salvação pertence apenas àqueles que aceitarem a loucura escorrendo em suas veias."

Eles, o ovo apunhalado.



me senti menos louca. um dia pensaram [como eu] que os extraterrestres existem e que eles são feitos de luz, porque luz é a entidade maior do universo. e somente ela poderia chegar aqui de tão longe e tão rápido e tão vívida.

Luna
às 13:54

Sexta-feira, Agosto 25

forever young seguido de stay loose

"..let the good times start" [e não os são sempre? eu os reconheço quando, sem querer, escolho uma belle&sebastian]

lembrando os 4%.
rindo muito. e sorrindo também.
guardando cartas e pintando sempre muitos marcadores.
algumas flores dentro dos livros. e por quê eu sempre amo os ditadores? pois saiba bem que senhor aureliano era mesmo um gênio. saudades eu de macondo, patrícia. daquela cidade encantada, encantada pelo mormaço que sempre imaginei nas estórias do gabriel, tão estranho isso. e melquíades também. fiz um desenho para lhe mostrar. leia gide. sandman é muito sombrio.

Luna
às 21:16

Terça-feira, Agosto 15

o cheiro de velho
a solidão da vida mordena
um verso sobre tango, febre e a impossibilidade de tocar gaita
no fim, se eu for morrer, discordo do poeta, quero mesmo é um blues em lá menor.
mas isso vai estar no meu testamento caso você não lembre.

a vida vai bem, obrigada, a gérbera também.
se estás tão ébria - no mal sentido - então deixe as cartas para lá.

Luna
às 15:09

Segunda-feira, Julho 24

só sorrisos me respondem
que eu me perco de você.


meninas vão embora, ciao. o rapaz chora escondido, contido.
que faço de vocês?, eu estou tentando não dormir, terminar as coisas, é importante que tudo tenha fim.
sabe o quê? sem forças. fraquinha fraquinha. a vida segue rumos bizarros. incríveis - no sentido mais literal. e tudo isso não é crível porque a gente se encanta e se esquece. quero um abraço agora, sim. maria-maria, roubaram-me a índia e dela, roubaram a mãe. e agora tu, eu mesma que um dia já fui anjo e que um dia protegi você na casa de doces. amo sim, tão contida quanto o rapaz, mas não menos por isso. saudade, saudade cor de nem sei quê, saudade de quem não alcança, ou assim parece. saudade como a de meu pai no dia em que choramos juntos. saudade como ontem que não consegui tocar, e como eu quis!, saudade de vocês, meninas, que vão embora ser felizes e não é por falta de cartas nem de declarações que vocês desistirão. a mágoa que guardo é minha, que covarde esconde-se atrás de presentes bobos e surreais. como o brinco que completa ou os desenhos enrolados na carteira, os marca-páginas feitos à mão, flores em livros e os próprios livros. quando dei caio, dei a mim. um perigo, tão cedo. sora mesmo dizia que um perigo dar um livro tão grande para alguém também tão grande. é possível mesmo que se o alguém não entender as palavras, pareça que não entende a nós - engano nosso, intransigência mesmo. os olhos são diferentes.

isso era para ser uma declaração escondida no meu esconderijo favorito, mas vejam só que eu chorei e borrou tudo. só digo uma coisa, se forem, voem alto.

Luna
às 13:56

Quinta-feira, Julho 20

hoje sentindo mais estrela distraída que cega.

Luna
às 19:34

Domingo, Julho 2

anacronismo.
disritmia.

- de tempos atrás. notas de uma caderninho com cheirinho, alguns rabiscos de gêmeos siameses grávidos. alguns olhos grandes e redondos [negros, sempre] e boquitas de cereja - como na música do tarancón.

"uma proposta. hum, que será!
ah, hoje amo, nunca antes; sim,
as estrelas - serão mesmo inúteis como proferiu Conrado? pff, ao menos belas.
é que dizem tanto, encanto, alento: euforia [antecipada]. sor-rir.
talvez tristeza inspire letras pela monotonia que impõe. ah, os sorrisos, bem, são tão mais concretos. na verdade, acho que não. são subjetivos e escorregadios. do capricho, o belo [já professava sr. wilde]. a tristeza é anacrônica". 23h41min.



"o que será? às vezes, só por um bem breve período de tempo, eu me pergunto o que será. decerto a curiosidade [!]. só que irrito ao pensar que talvez pode ser o o medo de futuro: a começas, medo pra quê [nota: decerto, também, não pensas mais assim.]? e depois, futuro é só hoje mais 1, entende? nada muito assustador. adoro mudar de assunt, adoro essa confiança, esse sorrir e até ficar séria: seus.
ei, nossa, ela não quer falar? como será então que eu vou ouvir? saudade-sempre, juro
sem que precise jurar [...]"

há horas em que você olha e gosta do que vê. um quarto meio sem graça, eu sei, mas lembranças em todas as paredes, idéias vagas, algumas teorias que me contaram. diz-se tchau todo dia. mas quando é de vez é que é. eu digo, foda. diz-se tchau para dizer oi, é? me contaram isso, não tenho fé não. vou indo até que um dia me forcem ao tal desfecho. é que, já te disse mil vezes, odeio esses fins que sempre te fazem pensar em política-sociedade-mediocridade-família-você e todo o resto da miséria de conhecer o mundo novo. como tua mãe te soltando na escola, como num parto, a gente nunca pede. até os 16. e mesmo legião professou isso. entende? dezesseis é estranho. é incrível, mas pesado. como amor, sabe. como amor, acho que somos apaixonados crônicos. é quando os quatro segundos provam sua existência quase imperceptível e quando o sono é mais gostoso.

jurei uma coisa ao meu túmulo: não ao amargo. evito mesmo os chocolates. de verdade.

Luna
às 20:51

Quarta-feira, Junho 28

e inês morreagoniza e sua carta não chega, moça.

'estejas por perto ainda que caminhe com ferro em brasa, só para me mostrar quando dói.'
não se atormente, meu senhor, é o que lhe digo. buraco de chuva tem em todo asfalto, e apesar de ser um dos maiores horrores do mundo, acredito haver terra em baixo, terra fértil. para minhas plantinhas, e sendo sertão. há sempre a mata branca. confio em deus e na chuva.


pois bem saiba, menina, que não depende de você e disso nunca duvidei, bem sei dos limites a que me exponho e me submeto, mas veja só, a pergunta senão retórica [oh tragédia as retóricas, também creio] só para mim.

ah, pois só há três coisas [...] bobinha só não esquece dessas três coisas, fora elas, perdoe, chapéu-côco, menina-lua perde nomes filmes livros pensamentos medo amigos e até poemas no banco dos carros. incrível, não? não.

kalúkalúkalú é meu nome. quero muitos muitos filhos gatos bichosquaisquer. dar nomes às pessoinhas e vidinhas lindas pequeninas e absurdamente encantadoras. nisso discordo brutalmente. desde o sete mantenho uma lista [sempre atualizada] dos nomes deles. e essa semana, parcialmente, gostei de nina. nina é lin-do[a]. but forget it for a while, it's blowing in the wind, soon it will come back: to stay.

Luna
às 10:55

Quinta-feira, Junho 22

e a sua inês morta digo: ao menos, fez-se bela.
como na música do alceu. a incidental mais genial. escute viu.

Luna
às 13:44

Quarta-feira, Junho 14

4 de junho::
uma rede, um barco, asas.
depois disso, acho que o amor se encanta.

7 de junho::
sora&priscilla - saudade das duas.

{sr. marlowe: amargo
natália disse que chamava marlowe o pedro
as coisas me chocam, soam tristes.

p.s.: acho que mais dramáticas que tristes. questão de ideologia. mas o dia foi lindo, não importa o quê.
p.s.²: a voz está voltando, e eu gosto de falar.

8 de junho::
dia dos oceanos. vou morar no mar, me espere, viu.

9 de junho::
. música . choro . colo . saia . godard-pontopê-glauberrocha-buenavistasocialclub-ealgomais . batuque batuque, como vai, encantado obrigado, batuque, gustavo, gabi, pedro fim de carreira, sorriso-abraço-beijo, amei.

10,11 de junho::
clube da esquina, dos gardenias para ti, desenhos e um avidavaitãobem.
bela maria e tia alma - uma flor, um convite

12 de junho::
arrumar a casa, visita, balas de leite, macarrão e fio-dental.
lima barreto: o brasil não tem povo, só público.

13, 14 de junho::
patriotismo virou moda.
onde está wally na torcida da croácia
baralho pernalonga, pizza a alho e óleo, mentira, caio e remédios.
para eu me convencer do convencido - "multis lingua nocet, nocure silentia nulli"
encontro com o ovo apunhalado e a dor no fundo do peito
uma resposta a um email hilst

{lixo orgânico - nós
poemas mal-compreendidos - deles
falso testemunho - eu
index reformulado - eles

oh, os pecados mundanos-modernos são tão patéticos.}

Luna
às 23:08

Domingo, Junho 4

fly blackbird. fly away and let there be love.

Luna
às 15:06

Quinta-feira, Junho 1

i. dar o beijo mais bonito
ii. acordar o dia, antes dele te acordar
iii. ser menina-lua só para tocar o céu
iv. derramar essa saudade cor-de-goiaba que brotou aqui
v. que a noite me abrace e que me cantem uma bonita canção




a condição-mor é que você escreva sempre ao acaso, sem pretensões de perfeição-rima-genialidade, que aquilo que você venha a escrever seja a razão pela qual você lê aquilo que lhe dei. que esse livro e todos os seus brancos sejam teu diário por todo o tempo em que estiver com ele. sua mente traduzida. entenda como fato-verdade-imposta: o espaço onde não há tinta é para sua letra. feito isso, dou-lhe toda a liberdade que me exigir.

é que assim talvez você me leia em suas próprias mãos. todo sentido. é algo tão sério e tão incrível, quase religião.

Luna
às 13:20

Segunda-feira, Maio 29

pipoca&chantilí.
a arca de noé tocando, e um certo pato patando aquiacolá.
também toca o maestro, e o cd arranha sempre na melhor.
descobre-se um encanto que faz corar - mas é escuro, não se perca, senhorita.
nenhuma estrela - é que a lua ofuscou, arrisca alguém que passa, que passa como quem fica.

sem grandes invenções complexos convenções
admito silêncios, mesmo aplaudo, sim senhor.
toque para mim, adoro ouvir antes mesmo de aprender a falar.

Luna
às 21:05

Sexta-feira, Maio 26

sol a pino.
dói de tanta que é luz. fortaleza nunca foi tão branca. e eu que pensava que caatinga era mata-branca de luz.

-

sem grandes invenções, o silêncio tem sido insistente.
mas vou me acostumando a entender os vazios entre as letras do papel.

Luna
às 19:46

Sábado, Maio 13

escondo aqui minha carta-testamento,
mais poema que carta-queria eu.






quando morrer, menina, quero que escrevam - não meu nome, não meu rosto:


"aqui arde a minina da lua -mandou dizer que-
meu tempo é quando.

se de manhã escureço, de dia tardo, de tarde anoiteço, de noite ardo o meu vento foi o norte. eu semente nascida do vento eu poeta condenso o mundo num só grito.
antes de tudo, noiva do amor. depois irmã do terno amor eterno - sempre a esperar o trem chegar."



quero também que me enterre em minas. terra-prometida: berço de todos os amores, de todas as boas canções, de todas as conversas em língua-indecifrada [tão íntima que se pára no que-]. quero que escreva que amo os jasmins - estrelas cinzeladas, que fui vento e carreguei em meus braços dois amantes incansáveis: tu, o amor, e meu pai, o mar. me enterra em minas, mas joga meu coração no mar - que se venho dele é para ele que vou. e no meu peito, colado ao meu peito um pedaço de estrela, que é para dizer que sou reflexo do céu.

meu jasmim já cresce, um dia mostrar-lhe-ei, minhas corujas inanimadas já trepam em seus galhos firmes. e de súbito tive mais um anseio: plante em cima de mim um jasmim, para que dele nasçam estrelas e para que o mundo veja: o segredo dos poetas: meu nome.

Luna
às 17:29

Domingo, Maio 7

.feeling like giulietta~



___

ms; eu sei que o cessar te cansa mais que qualquer ausência. prometo mesmo que por tudo que ocorre e ocorreu, farei diferente. eu te dizia outrora sobre cuidar mais por ser mais frágil. inevitável, vital. vivo, mas quieto. um sorriso para você. e para lívia também.

Luna
às 16:52

Quarta-feira, Maio 3

e agora, após 16 primaveras [quem sabe verões, tratando-se de fortaleza], eu voto. do futuro do país, disso eu já era parte, mas vejam só que agora, eu posso ser presente.

[porque eu ainda tenho o sonho de que votar é cidadania]

Luna
às 14:55

Domingo, Abril 30

eu.quero.um.coração.que.brilhe.como.luz.
eu.quero.um.coração.feito.de.strass.
todo.de.strass.
quisera.dez.mil.volts.nessas.mãos.
quisera.
quisera.enxergar.a.olho.nu.
quisera.eu.quero.ir.pra.festa.principal.
vestido.de.alegria.e.sensação.e.
quero.imaginar.e.acontecer.
subir.no.arco-íris.musical.
eu.quero.aprender.sobrevoar.
no.tempo.que.escorre.pelas.minhas.mãos.
pousar.num.campo.limpo.
devagar.abrir.asa.de.ave.pra.descer.

eu.quero.um.coração.que.brilhe.como.jóia.de.valor.
que.soe.como.sino.de.cristal.
batendo.forte.sem.estilhaçar.

eu.quero.saber.rir.saber.cantar.
eu.quero.
sentir.gosto.sem.desgosto.
alegria.paladar [...]



era mais ou menos assim que tocou no rádio, estava eu com um sorriso tímido-canto-de-boca.
acho que a número nove.

dos silêncios Eru falou: me agradam muito: dão tempo ao tempo,

como eu pedi.









"pedro bala sentiu uma onda dentro de si. os pobres não tinham nada. o padre josé pedro dizia que os pobres um dia iriam para o reino dos céus, onde deus seria igual para todos. mas a razão jovem de pedro bala não achava justiça naquilo. no reino dos céus seriam iguais. mas já tinham sido desiguais na terra, a balança pendia sempre para um lado."

amado, jorge. 1912-2001

capitães da areia; romance;
101a ed. - rio de janeiro.

Luna
às 12:29

Domingo, Abril 23

eu tenho uma teoria diferente, patrícia.

acho que o sr. deus nos dá apenas o que precisamos, que quase nunca é o que queremos.
para ser sincera, funciona, quando você entende.

_____

vinte e seis de abril de dois mil e seis, quatorze horas, vinte e quatro minutos e cinquenta e três segundos.

eu ia rezar para que teu medo e tua
melancolia fossem abolidos por alguém que fosse livre de si
mesmo.
e sim, ms, vou pensar em algo a que pedir ao Deus.

Luna
às 21:20

viu a lua
ouviu os carros - esperou pelo mar
alucinante foi a palavra que usaram
como naquelas minhas historinhas faz-de-conta em que amar vem primeiro que descobrir. e isso eu não aprendi, eu quis. quis porque nunca foi fato, porque em história eles sempre fazem guerra. eu só quero uma rede para dormir, talvez algum balanço para ser empurrada - que saudade deles. tudo tão divertido, não consigo pensar em outra coisa para dizer. ou mesmo para sentir.

quero meu lirismo de volta, aquele que tu me roubaste outro dia, rapaz. e sabe que amo essa nudez que me ocorre agora, mas estar nu também pode ser perigoso, vê? não sei quem me olha ou quem me persegue. é como tirar uma casca, e se não tenho metáforas, como é que nego a semântica que repudio? pois é que sou de impulsos e estar assim ao vento é perigoso, eu gosto de correr de olhos fechados, sabe? talvez as pessoas se preocupem um tanto. e mesmo eu, quase desprovida de senso, tenho medo. é a primeira vez. e eu amo&odeio esse medo que ora me prende, ora desafia. é divertido sim, mas eu gosto de me velar, não estar assim à toa demais [só um pouquinho].

só algumas considerações, e ainda agora eu não consigo. acho que perdi mesmo isso. vai que para terminar [ou seria começar? mas é que o fim é sempre começo, hum] algo a gente joga fora os colares, as idéias e junto, as palavras. mas fato: eu me divirto nisso tudo. nesse processo estranho e absurdo que inventaram lá dentro da minha avoada cabecinha.


ps. é, talvez seja mais difícil do imaginei fazer
canções sem nenhuma dor. mas saiba que o
amanhã nem é distante, é bem ali, tá vendo?
ali ó.

Luna
às 08:57

Sábado, Abril 22

a menina diz paciência.
o amigo da menina diz mentira.

[por você mesmo, eu espero que seja de fato uma mentira, vai que você acaba como meu tio-avô, uma lástima hum?
e por mim, bem, só pelos sorrisos.

vejam só vocês dois. sinto-me num meio de um tabuleiro de xadrez. não sei se rio ou se jogo.
crianças, lembrem-se que não somos marionetes, apesar da plasticidade toda. me diverti, agora;

mas para lá de fútil [mentira!]

Luna
às 15:58

Sexta-feira, Abril 21

medo de assustar. de me assustar. odeio não saber se é capricho ou pra valer.

xa pralá.

talvez sejam só sonhos ou solidões. é, vamos ver no que dá.

Luna
às 14:55

a fetsa foi-

meninos jogam videogame
minha lua é a varanda do prédio ao lado
alexandra se encantou com o moço de biologia
[eu também. [eu digo, quem esperaria joan baez e cordel no mesmo dia?
dançar continua a salvar vidas, meus amores, lembrem-se disso,
esqueçam o protetor solar do idiota da tevê.
os dias hão de melhorar, talvez mesmo
quase que exclusivamente pela boa música,
algumas palavras de encanto.

era maisoumenos assim que ele me cantou, enquanto eu delirava com a lua-varanda:
[deus tantos prédios, quase um quarto me enjaulando, por sorte, não inventaram prédio-flutuante,
ainda tenho meu céu e minha santa chuva, ó sr. deus]

devia passar por 3 de janeiro
todas as crianças jogavam videogame
eu pensava nas frutas exóticas em extinção
no biotônico forçando o apetite na vida.

acordei com sei lá que pé
arrombaram meu tímpano, era a crise do axé
e comecei a dar conta da ira inexplicável
que guardava pela aquela vizinha
ela tostava a galinha cozida enquanto delirava
com as versões remix dos clássicos de 80.

os caminhões passam, por todos os séculos passaram
e a BR afundava junto com o sentimento que eu tinha
por essa bandeira, as mesmas cores na estampa do meu quarto.

quem diria que teríamos tal fardo?
a depressão já nos persegue, temos de correr mais rápido
era fácil e divertido, as linhas de raciocínio tracejado
meu amigo, o teu câncer de fígado não passa de neurose,
[basta ter cuidado.

Luna
às 09:23

Terça-feira, Abril 18

hoje eu perdi minha sorte. ela ficava atada ao meu pescoço, balançando, presa. viu o mar e de repente libertou-se. acho que agora é que vem o preparar-me para: levantar, crescer, correr, ficar, enfim, pegar argila e fazer porcelana. não preciso mais de sorte, não, sr. Deus.

Luna
às 12:55

Quinta-feira, Abril 13

acordei com vontade de belle&sebastian.
mas acabei ouvindo jeff buckley e smiths.


p.s.: e não importa o que digam, eu prefiro brian jonestown massacre do que seus conterrâneos dandy warhols - apesar do nome legal.

Luna
às 07:06

Sexta-feira, Abril 7

saudade de ilusões, queria ser deus, voar ao infinito. ser o infinito. evaporar-se por completo, num absurdo-revolta contra as leis que me regem e me oprimem e alimentam minha existência - que sinto muito senti-la medíocre agora. as leis que regem o universo, queria ser o universo todo e ainda sim, como disse o homem, caber numa casca de noz. nozes são mágicas. comos os feijões de joão. como para o quebra-nozes conto-encantado-americanizado que tanto amo e repudio, aqueles finais românticos que nunca me acontecem e que eu mesma não sei deixar acontecer: porque um dia quase todo-dia me disseram que a vida era assim mesmo e que a única forma de liberar serotonina era assistir mais novelas mexicanas e filmes-sessão-da-tarde aos domingos. nem água nem açúcar, quero mesmo é a coragem de viver um amor. amor que nunca mais volta se descobre que eu o repudio que o temo e que eu o ignoro. direi que foi sem querer, mas foi querendo mesmo, querendo não-querer que me abstenho do maior anseio que qualquer ser poderia almejar. eu o tenho e como areia, como ser inerte submisso, eu me rendo e separo bem os dedos, mas naturalmente, para que o punhado que tinha se esvaia e que a culpa não recaia em tão inerte matéria.

e alanis [m.] ainda me faz chorar, e caio [f. a.] ainda me desperta um arrepio.

Luna
às 20:25

Quarta-feira, Março 29

Let's dance in style, lets dance for a while
Heaven can wait we're only watching the skies
Hoping for the best but expecting the worst
Are you going to drop the bomb or not?

Let us die young or let us live forever
We don't have the power but we never say never
Sitting in a sandpit, life is a short trip
The music's for the sad men

Luna
às 21:09

Quarta-feira, Março 22

escrever. espressar-se graficamente por meio de símbolos padronizados com o intuito de comunicar, organizar e perpetuar.

eu vou dançar
a dança da chuva
escuto desde já
os tambores do maracatu
vou me pintar de negro
e a chuva lavará
minh'alma.


eu não sei porquê, mas por ora lorena me encanta, sua alienação é o meu anseio mais desesperado. sua distração, sua licença poética [...]
não nego que essa distração lhe é concedida por sua fraqueza moral - não, não moral, mas físiológica mesmo, aquele minimalismo que mata - e talvez isso nem minha natureza de exploração nem meu mais sedimentar ego me permitissem.
não ignoro as limitações nem os perigos que lhe cercam, mas é justo sua ignorância quanto a eles que a salva.
quero ser cega, também. cegar-me-ia eu mesma se assim minha consciência [lúcida] do mundo fosse capaz de abdicar desse sentir.

Luna
às 21:25

Segunda-feira, Março 20

abandonado rasgado esmolado verborragia que me falta só amo aulas de biologia, história choro e penso em vida-vadia. vou chorar só, e como diz livia no flog, quanto mais tudo muda, mais tudo continua a mesma merda [com sotaque a la sra.coelho], babacas.

Luna
às 20:19

Sexta-feira, Fevereiro 17


15.02.06




"ir para um plano mais elevado, com ares de Imagine, não à política, não à religião, não a qualquer coisa além do branco." ela me disse, decepcionada: havia perdido a viagem.

parece bom tudo isso, e nem é tão pretensiosa, a idéia. afinal, não devem todos os sonhos ser do mesmo tamanho?

tudo tem o mesmo valor peranto o infinito, e absurdas variaçoes perante o indivíduo.

ela era uma sábia, eu, sabiá - ou aspirante, né, vezenquando desafino. abstrair-me ali, quietinha, enquanto ela sonhava com tudo isso, um nirvana cotidiano, ouso dizer. MAS aí ela se foi, e eu fiquei. ela foi encontrar a imperfeição absoluta, ilimitada. nós é que ficamos presos a essa valsa-balsa meio torta e perfeitinha e sala-quatro-paredes. posso dizer? estou cansada de dançar, meu amor, e nem estamos perto do fim do infinito. mas olha só que agora somos filósofos e jajá vem ela nos salvar.

[ainda na mesma página estava escrito:
- deus est solus scrutator cordium;
- eu sinto a falta da poesia. [post-edited] e da pequenice;
- o que fode bukowski é os fins-sem-fins.]

Luna
às 18:56

Domingo, Fevereiro 12

Essas feridas da vida, Margarida
Essas feridas da vida, amarga vida

ele repete tanto isso que eu estou quase acreditando.

Luna
às 13:53

Domingo, Janeiro 22



e sabe o que resolvi dizer a ela?
- because this real thing that sticks here for days and years and eras, this is our very own truth. the eternal gloomy sunday of our lifes: sonhar um quintana e morrer num caio.



eu só sinto falta da poesia.

Luna
às 11:11

Quarta-feira, Dezembro 14

há pessoas que vivem de passado, outras de futuros. quanto a nós, moça, o futuro é que depende de nós.

Luna
às 15:52

Terça-feira, Dezembro 6

[parêntese: e o caio (fernando abreu? nem sei se esse, pois pensava era na criança mesmo) a eternos navios que nunca param.
papai, pendure minha coruja de madeira, marília, não diga mal dela.
e o caio, ah, um sopro. se ele é explícito, e nós, não somos também? quase uma indiscrição, e vêm me falar de abuso ou sujo. moral está na cabeça, já dizia mamãe. pois que isso ficou, a frase, digo. amei caio, mes-mo. caio é um bom nome, falando nisso.
gabriel, caio, luan, sabina, charlotte, artemis, como queira*]

Luna
às 09:35

Segunda-feira, Novembro 28

era de uma beleza miúda, detalhista. lembro-me de, procurando não sei o quê naquele corpo magro, quase raquítico, ter-lhe abraçado e de repente já se ia longe. ela tinha desses encantos, nunca me deixara amargar à dor da despedida; embora seus gestos fossem delicados, suas partidas eram sempre bruscas. eu, nos meus ilusórios dezesseis - e por que não efêmeros?, acreditava em eternidade, aquilo tudo, tão próximo e de repente já se esvaia, aquilo tudo era, para mim, a verdadeira infinitude, eu confundia a plenitude, pois era essa a palavra, parecidas, talvez os sons ou minha ignorância. é que o infinito sempre me pareceu quieto e perfeito, minhas tardes de dezesseis eram assim, acompanhavam um bom vinho, escolhido a dedo e a contrabando da adega de meu pai. verdade é que eu era muito ingênuo e facilmente me inebriava, com um perfume ou qualquer coisa de triste, melancólico de uma rapariga ou outra. embora, como um bom cavalheiro, com toda a classe e pose de bom moço, sempre vivesse a repetir que aquilo seria eterno - até o instante próximo. pois que aquela foi a mais jovem. tinha um quê de encanto primaveril. pois que a tal moça foi como a estação, sempre breve e radiante. acho mesmo, agora, que ela sabia o que seria, e só brincou, pois até hoje penso que aquela que me fugiu antes do instante próximo poderia ser a razão de minha espera, e é a espera do fim de uma solidão remota, o qual sempre ignorei a existência.

Luna
às 11:49

Terça-feira, Novembro 22

"desesperadamente prove agora desse cálice,
toque agora nessa pele,
espere sem esperar
- prometa sem prometer,
de sofreguidão se esvaia,
mas não caia, não caia na rotina.
descortine e feche tudo,
seja escuro e seja claro,
seja meu e seja raro,
seja tanto e seja apenas."


;* amei.

Luna
às 22:13

Terça-feira, Novembro 15

saindo do mr. jack.
por hora, captain beefheart e frank zappa são a minha diversão.
[pulando em cima da cama.

aniversário foi feliz, mais festas [!] os livros vão bem, arrumados de novo. o sebo, sabádo, amor? oh, sim, sim. quando fugirmos para minas, compraremos uma radiola e ouviremos os velhos. tenho de lhe mostrar o solo de trompete, nera?

Luna
às 19:42

Quarta-feira, Novembro 2

em recesso:

- ocupada com o Sr. Milton Hatoum e a Sra. Marguerite Duras. uma espécie de chá.

Luna
às 19:25

Domingo, Outubro 30

o corpo de santa ali vestido. a pele morena ainda escura. tão linda.
pensava que agora era hora de o diretor dizer corta, o corpo dali levantar e a mentirinha acabar.. em arte.
ela parecia mesmo gente afinal. como se pode, e as dores de outrem, não viram isso? os amores, os horrores. não é justo, nem foi. ela era boa mesmo, sabe? entende? a pele ainda morena, o rosto ainda santo. os sorrisos para contem o choro. não, aquilo não é só carne, não pode...

Luna
às 09:14

Quarta-feira, Outubro 26

sr. trompete diz:
http://straccio.blogspot.com/

sr. trompete diz:
ela disse uma vez:
É

Amor não morre.
Suprime-se.

nuvoleta ~ diz:
quem é? =)

sr. trompete diz:
não sei. um dia por aí achei e me apaixonei

Luna
às 17:03

Sábado, Outubro 8

eu tenho uma tela branca. eu tenho o mundo. vou desenhá-lo todo, cubrir de frases canhotas escritas com a direita. branco e preto, é o que tenho, branco e preto. eu queria portugal, quem sabe irlanda, mas o que tenho é a tela branca. quem sabe um dia isso não significa mais do que nada. há dois jeitos: ou é o mundo de possibilidades onde nada me é vetado - mas de que me adianta as possibilidades sem as concretizações? pois bem, depende sim, do que eu acredito. só que às vezes eu canso de acreditar em qualquer coisa qualquer. embora eu não acredite na possibilidade de alguém se tornar ateu.

o mundo cai e eu continuo com a minha tela branca. sabe o que é? queria gritar para o mundo isso. e depois dizer não se metam. e depois dizer me escutem. e brincar eternamente de desejos sem nunca os reprimir. esconder. olhar para os lados, corar. não, não. entende os nãos? e nem sei fazer, eu preciso do consentimento do resto da nação, uma covarde. ademais nem é um grande problema - na falta de problemas, eu o considero.

eu juro que quero gritar, sim? vamos ver um lugar, quem sabe um tempo. ademais, só queria algumas pessoas por aí.

Luna
às 17:45

Sábado, Setembro 24

[edit] os segredos pesam [/edit]



belle and sebastian - like dylan in the movies

eu quero chorar. um dia você escuta um som e lembra daquela música. aquela. e você se lembra de tudo que ela representa, de tudo que você sentia naquele tempo. aquela velha infância. e você se desespera, aquela paixão pela vida, que era espontânea e lépida, e que agora é forçada e esforçada, não há mais. você se agarra ao tempo, grita com ele, diz coisas terríveis. mas ele é esguio, e logo escorre pelos dedos, como a areia dos filmes. agora o tempo não mais o ouve. você está só, completamente só. e isso poderia ser bom, porém o tempo é vago e a solidão aumenta. escurece, agora nem mais luz. tomaram-lhe a luz. e o vão espaço que te acomoda é frio, infinito. está saudoso, quer a luz, quer a música, quer aquele tempo que foi.
e de repente, [não mais que de repente] você aceita não poder voltar. uma melancolia. você é cacos. pensa que cola? não, os estilhaços já vão longe, amor, não se iluda. a esperança é vã. o tempo também a roubou. ele é mau? não, meu amor, você que é velho, desleixado, que deixou o tempo passar; mas ao menos, sorriu? sim, sorriu. brincou, foi eterno enquanto, sim.

- nem peço de volta o que me roubou, vento, mas só não deixe que eu me esqueça, sim, tempo?

Luna
às 10:36

Quinta-feira, Setembro 22

alice no ventre do mundo.

a mulher lia as palavras do livro para ela, dizia que 'Somos exigentes, seletivos e seletos, somos a escória, o incipiente do podre verbal; ou qualquer coisa que o valha.
'Mas é tudo essência mesmo, fé, desejo - move. Somos desprezíveis, parciais e passionais. É belo, é forte, mas é nojento, é a miséria que há, que é. Seremos huri, prostitutos do paraíso. e outras palavras mais.

'E wave toca, Sinatra faz serenata - delírio, vertigem? e Alice acordou. tonta, a menina levada? oh não, mulher, estou só um tanto nauseada com o nojo que sonhava [...] e elas continuaram a falar outras inutilidades quaisquer.

Luna
às 13:37

Quarta-feira, Setembro 21

eu havia escrito algo por ali, mas nem vou mais por. sabe-se lá o por quê, só não. hoje um homem veio aqui, ele me ensinou algumas coisas, aprendeu cá outras. professores são eternos alunos, sim? ele tinha uma concentração encantadora. ele falava só, e eu, valha. dessas que se apaixona fácil. ele ia escrever no meu caderno, e abriu numa página:
the doors
pink floyd
björk
cordel

bandas que conheço, cordel, por aí; doors, eu sonhando em um cover, e aqui dando aulas. - ah, sim, doors, um dia eu[...].
ele largou no segundo semestre de direito: a filosofia acabou, sabe. daí pensei, história, então. é eternamente assim. até outro dia. e foi-se. a vida tem dessas, hum, a narradora da estória dizia. dessas. amanhã, meu último dia. prometo, natália, vou tentar.

Luna
às 21:05

Sexta-feira, Setembro 2

No futuro, daqui a uns 100 anos, quando pudermos ser classificados numa geração literária, falarão que a nossa geração foi vazia. Nossa marca: os livros de auto-ajuda e as cópias desvairadas dos outros séculos. Somos saudosos, falar do passado é tão mais fácil.

Classificar e organizar são características intrínsecas a nós, humanos. Qual, afinal, seria a vantagem? É que alguns pensam numa forma mais literal de classes. Tudo não passa de uma vaga idéia do que se foi, de como foi, quem pensou e o quê. O que dirão de nós? Eram pessoas individualistas, sozinhas. ¿Um movimento que relatava o drama da época, o sentimento de solidão e de desentendimento das pessoas, que tentavam achar-se em livros de auto-ajuda.¿ Imagine isso impresso nos livros de literatura ou nas revistas retrospectivas do século. ¿As pessoas estavam procurando se inserir num padrão que era definido por palavras de um desconhecido, um ciclo vicioso.¿ É isso o que eles vão dizer de nós.

Afundamo-nos num individualismo abstrato. É que quando se pratica esse isolamento, naturalmente ficamos sós, e sós somos fracos. Para que esses livros sejam best-sellers, deve haver muita gente sentido-se desamparada. É como se todos estivessem em lugares distantes, longínquos do lugar-comum e o padrão é o desejo mais profundo ¿ se já não raso o suficiente, do ser, agora. Somos modernos, não? Não. Somos vazios, sem identidade, nossa identidade é a negação de uma.

Aderir a esse desespero vago seria ¿transformar-se em mais uma pessoa que pensa que as coisas são escritas pra elas e somente para elas, quando, na realidade, é algo escrito pra todo mundo.¿ De repente, somos tão individualistas ao ponto de nos perdermos numa filosofia vã e barata - literalmente. A busca aflita pelo conjunto, ainda que nada tenhamos haver com aquele padrão. Talvez mereçamos mesmo ser mais um gênero a se estudar. Apenas isso, um novo conjunto de palavras sem nexo.

Luna
às 18:15

Quarta-feira, Agosto 17

'transformar lágrima em canção
eles sabem voar alto
catar migalhas do chão
rio mostrando os dentes, língua afiada
mais cortante velho blues
chorar como um poeta do passado
fumar o meu cigarro na falta de absinto
aos pobres empresta a deus'


eu feliz. que senão, você só. aqui, aqui. cansar é ruim. ruím.
precisamos é de ideologia. a competência, bem, todos têm.
ideologia. cazuza já dizia. eu também. papai que falava:
perder a ideologia é morrer politicamente, individualmente,
esdruxulamente. não nos deixemos sós.

Luna
às 14:27

Sábado, Agosto 13

e passou, papai, passou. passou? não. vai vir, porque eu quero vê-la passar. desfila para mim?

gosto de você, sora. gosto sim. nem comprei ingressos, mas o dia foi difícil, deixe outro, certo?

e do mundo, sei que é, selecionar o crescer é feio, fácil. mas deixe eu quieta um tanto, tá, garota, que senão eu canso. deixe, que depois eu penso, depois bem longe, que de pensar, já sabe hum.

Luna
às 09:28

Domingo, Agosto 7

[reticências] porque o dia carece de falar, vê. só. nem bem nem mal, teteu dizia, mais para menos que para mais. mas nem preocupe, que é só saudade.

Luna
às 21:02

Sexta-feira, Julho 29

[edit] porque luna cansa de brincar. hoje não merece esse post. nem de longe. nem eu quero dar desculpas. nada disso, desculpas, ora. está aí porque tudo é válido, um valor como ficção. nada de validações. nada. que amanhã resolvo. porque hoje tive muito azar, nem era de sorte ou azar, mas de ser mesmo. depois fica bem, que papai disse. depois. hoje, as dores do crescimento - sempre precoce, ou quem sabe, já não tardio - estão terríveis. um drama. mas crescer é bom. e esses dois dias foi bem muito. o que define se eu atrofio, garota, é daqui para a frente. e sabe o que eu digo, que nem vou deixar. faça o que fizer, não vou. [/edit]









porque a luna gosta de brincar.

sobre o eterno vazio.
não me leve a mal, amor, é que gosto. foi feio, foi. mas era festa, espairecer, priscila, cafeína, sono. palavras-chave. vê? nem tive tanta culpa, hum. é sempre bom, mas feio, sei sei, nem diz, que sarcasmo é brincadeira de gente grande - mas tenho tendência a uma pretensão de gigante, aspiro, sabe. bem soube. soube, disse, sim, passado. é que o mundo gira, amar ou sofrer, tão dramático, né? mas hoje eu vi o mar, perdoe. nem sei mais com quem falo, se falo e de quê. é que o dia foi bom, sabe. o mar lá, eu lá. nada de vazios que você diz em todo lugar. nada mesmo, desculpe - sua teoria é furada. mas eu vi que você tremia, juro que nem era - não minta luna, é, foi. bem sei que nem acredita nisso. mas é que o dia foi tão bom, amor, tanto, não pude evitar. ela dizia marque presença. pf, que erro. e lá eu com piadas fechadas, brincadeiras pesadas, ainda dói. dói o quê? aqui, lá, o mateus cortou o pé, será que dói? é. esqueça, que o dia foi bom, mesmo luna sendo má. sim, anjo, luna mentia. que o passado hoje era o tema, uma moda. moda velha, digo, diga-se. tá bom de falar, hum; tá bom, que até aqui extravaso. melhor ficar quieta com meus segredos, não porque gosto de esconder, mas porque ninguém tem o quê. entende? perdoe, perdoe, eu bem dizia - não era que eu ia, mas eu [me] machuco, desculpa, que eu machuco;

Luna
às 22:00

Quarta-feira, Julho 27

as novas.
british sea power
mercury rev
dandy warhols
gang of four
the arcade fire
brian jonestown massacre
sugarcubes
mission of burma
dream theater
kaiser chiefs.

por mais que digam que o rock é novo, rock é uma merda. rock é sempre igual, só muda o sotaque e o tom da guitarra.
bom, vai que aparece um achado, hum. experimentar é o tom.
em outros assuntos que não música, experimentar já passou, talvez seja hora de decisões mais diretas. que venham então.

Luna
às 10:28

Segunda-feira, Julho 25

ah. luna vai bem, bem.
- luna, esse cara escreve como você, vai que você gosta. [isso ela dizia nas primeiras páginas]
[...]
- putz, que livro louco, muito estranho, acho que criei uma espectativa muito grande, enfim. [isso lá para o meio]
[...]
- mãe, dá esse livro aqui. vou ler, vou entender, vou lhe explicar e você vai ficar triste por ter dito coisas feias da luna.
acho que eu fico triste quando o vovô fica só com ela, a vovó, ou filhos. eles são tão chatos e falam com ele ora como criança ora como um estorvo a ignorar. acho que sou chata também, tanto quanto vovô - eu gosto de conversar com ele, tão mais racional que esses. e bem, mamãe também me ignora do mesmo jeito. mas pf, sou feliz, pai, juro. vocês são um mundo. nunca entendi.

e luna escutando bebo valdes e diego el cigala. el cigala, nome legal. mas eu gosto de radiohead, viu?

Luna
às 14:12

Terça-feira, Julho 19

eu vou para o infinito - que de profecias já me basta legião.
[se perguntarem, diga que fugi com você, amor.]

Luna
às 18:43

Sexta-feira, Julho 15

"Eram duas alices num labirinto de cartas - cartas de baralho? Mais pareciam duas palavras. Ora essa, palavras não, meninas; esqueçam-se. Viver é melhor que sonhar, dizia ele. Mas acordar não cabia, era? De início, sempre difícil, os amores contrariados de Gabriel, o medo de correr e cair. Eram duas crianças, se não sabes. Pois bem, duas sim. Conto-lhe isso, anjo, pela graça que era vê-las ali, a brincadeira eterna. Não, não me creia tão má, é que de deuses só há um fato: a curiosidade. Pois devias pensar que já sabíamos de tudo, uma esperança ingênua. Se disser o que faço: Procuro. Pensavam outros que ter é o mérito, não, não, a descoberta do mundo é tão melhor, meu anjo, criar é tedioso. Não me crê? E como poderia, senhora?, diverte-se a custas do amor. Ah, engano, o amor é trunfo meu, os amadores - contou-me uma delas outra vez - são os mais felizes, 'porque amam' era o que Lia dizia, mas inevitável a dor. Ao menos a glória lhes é maior? Glória é nada, anjo, nada."

[já que só você lê, pensei que não haveria problema em pôr aqui., pois bem, esse foi o único parágrafo que escrevi, muito sem nexo, percebe? não poderíamos - que boba. claro que podemos, é nosso. pois é, era isso que havia escrito. nem me sei, vê, mas eu estou mais perto de perder o medo de que lhe falei - um sorriso bem grande: crescendo.]

Luna
às 15:37

Segunda-feira, Julho 11

[edit] hora do post 23h, muita lombra mesmo, luna acordada a essa hora falando de John Locke. pfff. [/edit]

que por coincidências absurdas do destino, eu lembrei de locke.

Locke julga, como Bacon, que o fim da filosofia é prático. Entretanto - diversamente de Bacon, que julgava o fim (a idéia, a justificativa) da filosofia o conhecimento da natureza para dominá-la (fim econômico) - Locke pensa que o fim da filosofia é essencialmente moral; quer dizer: a filosofia deve proporcionar uma norma racional para a vida do homem. E, como os seus predecessores empiristas, ele sente, antes de mais nada, a necessidade de instituir uma investigação sobre o conhecimento humano, elaborar uma gnosiologia, para achar um critério de verdade. Podemos dizer que a sua filosofia se limita a este problema gnosiológico, para logo passar a uma filosofia moral (e política, pedagógica, religiosa), sem uma adequada e intermédia metafísica.


Locke não parte, realisticamente, do ser, e sim, fenomenisticamente, do pensamento. No nosso pensamento acham-se apenas idéias (no sentido genérico das representações): qual é a sua origem e o seu valor? Locke exclui absolutamente as idéias e os princípios que deles se formam, derivam da experiência; antes da experiência o espírito é como uma folha em branco, uma tabula rasa.


No entanto, a experiência é dúplice: externa e interna. A primeira realiza-se através da sensação, e nos proporciona a representação dos objetos (chamados) externos: cores, sons, odores, sabores, extensão, forma, movimento, etc. A segunda realiza-se através da reflexão, que nos proporciona a representação das próprias operações exercidas pelo espírito sobre os objetos da sensação, como: conhecer, crer, lembrar, duvidar, querer, etc. Nas idéias proporcionadas pela sensibilidade externa, Locke distingue as qualidades primárias, absolutamente objetivas, e as qualidades secundárias, subjetivas (objetivas apenas em sua causa).


As idéias ou representações dividem-se em idéias simples e idéias complexas, que são uma combinação das primeiras. Perante as idéias simples - que constituem o material primitivo e fundamental do conhecimento - o espírito é puramente passivo; pelo contrário, é ele ativo na formação das idéias complexas. Entre estas últimas, a mais importante é a substância: que nada mais seria que uma coleção constante de idéias simples, referida pelo espírito a um misterioso substrato unificador. O espírito é também ativo nas sínteses que são as idéias de relação, e nas análises que são as idéias gerais. Às idéias de ralação pertencem as relações temporais e espaciais e de idéias simples dos complexos a que pertencem e da universalização da idéia assim isolada, obtendo-se, desse modo, a idéia abstrata (por exemplo, a brancura). Locke é, mais ou menos, nominalista: existem, propriamente, só indivíduos com uma essência individual, e as idéias gerais não passam de nomes, que designam caracteres comuns a muitos indivíduos. Entretanto, os nomes que designam uma idéia abstrata, isto é, uma propriedade semelhante em muitas coisas, têm um valor e um escopo práticos: auxiliar os homens a se conduzirem na vida.


Até aqui foram analisados e descritos os conteúdos de consciência. É mister agora propor a questão do seu valor lógico. Costuma-se dizer que as idéias são "verdadeiras ou falsas"; melhor seria chamá-las "justas ou erradas", porque, propriamente, "a verdade e a falsidade pertencem às proposições", em que se afirma ou se nega uma relação entre duas idéias. E esta relação, afirmada ou negada, pode ser precisamente falsa ou verdadeira. O conhecimento da relação positiva ou negativa entre as idéias é, segundo Locke, de dois tipos: intuitivo e demonstrativo. No primeiro caso a relação é colhida intuitiva, imediata e evidentemente. Por exemplo: 3 = 2 + 1. No segundo caso a relação é colhida mediatamente, recorrendo às idéias intermediárias, ao raciocínio. Por exemplo: a existência de Deus demonstrada pela nossa existência e pelo princípio de causalidade. Naturalmente, a demonstração é inferior à intuição.


Estamos, porém, ainda fechados no mundo subjetivo, fenomênico; de fato, tratou-se, até agora, de relações positivas ou negativas, concordes ou desacordes com as idéias. Podemos nós sair desse mundo subjetivo e atingir o mundo objetivo, isto é, podemos conhecê-lo imediatamente ou mediatamente na sua existência e na sua natureza? Locke afirma-o, sem mostrar, entretanto, como este conhecimento do mundo externo possa concordar com a sua geral (fenomenista) concepção e definição do conhecimento. É a sólita posição de um fenomenismo ainda não plenamente consciente de si mesmo. Corta as relações com o ser e vai para o fenomenismo absoluto, mas tem ainda saudade desse ser do qual se isolou.


Em todo caso, Locke acredita poder atingir, antes de tudo, o nosso ser, depois o de Deus, e, finalmente, o das coisas. O nosso ser seria intuitivamente percebido através da reflexão. A existência de Deus seria racionalmente demonstrada mediante o princípio de causa, partindo do conhecimento imediato de uma outra existência (a nossa). A existência das coisas, alfim, seria sentida invencivelmente, porque nos sentimos passivos em nossas sensações, que deveriam ser causadas por seres externos a nós.


Entretanto, pelo que diz respeito ao nosso ser, é mister ter presente que nós não conhecemos intuitivamente a substância da alma, e sim as suas atividades. Pelo que diz respeito a Deus, a prova da sua existência vale, se vale absolutamente o princípio de causa - o que Locke não demonstrou. Enfim, pelo que diz respeito às coisas externas, mesmo admitida a prova aduzida por Locke - segundo a confissão do próprio filósofo - tal prova vale apenas pelo que concerne à existência das coisas, e não pelo que concerne à natureza delas. De fato, segundo a filosofia de Locke, não sabemos se as idéias da natureza das coisas correspondem à realidade das coisas.


Locke não admite, naturalmente, idéias e princípios inatos nem sequer no campo da moral. A sua moral, todavia, é muito mais intelectualista do que empirista, pois ele lhe reconhece o caráter de verdadeira ciência, universal e necessária. No entanto, não basta ter construído uma moral em abstrato, embora racional. É preciso torná-la praticamente eficaz, isto é, faz-se mister uma obrigação moral, que se imponha à nossa vontade. Ora, visto que é natural, no homem, a tendência para o próprio bem-estar, é natural que ele seja atingido pelas penas, pelas sanções, que precisamente lhe impedem tal realização. Que parte tem a liberdade da vontade em tudo isto? Locke nega, propriamente, o livre arbítrio, porquanto nós nos inclinamos necessariamente para um bem determinado e devemos desejar o bem maior.


Locke interessou-se especialmente pelos problemas pedagógicos, escrevendo os Pensamentos sobre a Educação. Aí afirma a nossa passividade, pois nascemos todos ignorantes e recebemos tudo da experiência; mas, ao mesmo tempo, afirma a nossa parte ativa, enquanto o intelecto constrói a experiência, elaborando as idéias simples.


Afirma-se que todos nascemos iguais, dotados de razão; mas, ao mesmo tempo, todos temos temperamentos diferentes, que devem ser desenvolvidos de conformidade com o temperamento de cada um. Esta educação individual não exclui, mas implica a educação, a formação social, para ampliar, enriquecer a própria personalidade. Tem muita importância a obra do educador, mas é fundamental a colaboração do discípulo, pois trata-se da formação do intelecto, da razão, que é, necessariamente, autônoma. A formação educacional consiste, portanto, fundamentalmente, no desenvolvimento do intelecto mediante a moral, precisamente pelo fato de que se trata de formar seres conscientes, livres, senhores de si mesmos. Por conseguinte, a educação deve ser formativa, desenvolvendo o intelecto, e não informativa, erudita, mnemônica. Igualmente Locke é fautor de educação física, mas como o meio para o domínio de si mesmo.

Luna
às 23:00

Quinta-feira, Julho 7

"quem castiga nem é deus, é os avessos."
a maior blasfêmia que já ouvi, seria mesmo o espelho o maior mal? ele me sorri tanto. tanto.

Luna
às 14:07

Domingo, Julho 3

radiohead - fake plastic trees
beatles - here comes the sun
foo fighters - blackbird [cover beatles]

joan baez é lindo. o sr. forrest gump fala dela, um orgulho. eu assisti um dia desses, encantador. também acabei notando o livro na livraria. falando em livro, a lygia foi muito melhor em ciranda de pedra, um drama. outra hora também quero comprar alguns cds e experimentar pato fu e ben harper. hoje, no aeroporto, pegando a bel, havia uma orquestra de sopro de pindoretama, as flautas transversas tocavam só duas notas, três vivas para a luna que toca cinco - seguidas. eu gostei também do cd do jem, it all starts here...". andei pensando em algumas ironias. passando lá em frente ao militar, comentou-se sobre o assassinato da moça por causa de 1,75. quanto mais nós aprendemos e estudamos [biologia especialmente], eu pelo menos sei muitas formas de matar e morrer, no entanto saber disso tudo só me distancia mais ainda desse desejo. o saber leva à sanidade ou à repulsão?

Luna
às 17:10

Quarta-feira, Junho 29

viu, sólida. eca.

"Faz escuro, mas eu canto diz o poeta. O poeta diz muitas coisas. No filme, choveu três meses e o garoto disse que chovera até de noite ¿ um pecado. O que era dor, para ele, o garoto, era também motivo: navegar é preciso, viver não é preciso. Não queria navegar, muito racional, então disse ¿sem mais nem menos¿; Charlotte também era assim. Convicta de que o mundo é para sorrir, que ele só já ri muito de nós. Somos uma peça tragicômica. Um tanto imprecisa, a moça ¿ como a vida, vaga, sempre profunda e logo, pff, uma borboleta ou outro bicho, e se perdia. Às vezes parecia fingir ser, e como que numa revolta, Deus! Fingir não, não, dizia então sou, fingindo não fingir ser. Era isso ¿ reprimir o saber, um instante de sorriso. Tímido e meio despedaçado, mas sorria. A frágil boneca de porcelana, minha boneca, dizia Gabriel ¿ o anjo? Bem parecia. Magro, como era fino, tão liso, um rosto sem sexo, sem gosto. Ela assanhava-lhe os cabelos castanhos, e ele dizia boneca isso não. Os cabelos, uma juba, oleosos e desalinhados; eles lhe davam uma aparência mais sonolenta ainda, retinha os olhos em meia lua e dizia ah boneca, fique quieta, sua mãe vai ficar triste, não quer ir ao céu? Lá é tudo bonito, tem gosto de comida. Gabriel cuida de mim, dizia à mãe quando brigavam, dava língua e o abraçava.
Gabriel tinha um jardim e uma colônia de formigas ¿ fazia experiências tenebrosas, ao menos achava. Brincava de Deus ¿ O Senhor do Universo, toda vida e toda glória. E sempre a fazer perfumes e remédios do jardim, um boticário. Outro dia, enquanto espiava pela janela, ele parecia uma criança fazendo gororoba e amassando folha em pilão. Tão concentrado, mas parecia saber-se ao redor, tanto que acenou para ela, mas como sabia? Saiu correndo rindo como uma desvairada. Quando se viu longe, parou de mãos no joelho, arqueada e esbaforida."

Luna
às 17:50

Sábado, Junho 25

faz escuro mas eu canto. gritar aos sete ventos, ao mundo. um abalo;
os pontos, ponteiros, horas. nada mais importa. o presente, na verdade, o agora. que presente é ilusão. o presente é um segundo a menos, está sempre atrasado. que o passado desbota - natália dizia - e o futuro, eca. futuro, e eu para os futuros! pff. ao inferno o Sr. Tempo, que o nada hoje é meu, o meu nada, algo. Palavras hoje é pecado. pecado é não ser feliz. pecado é não sorrir quando a lua te diz ser seu amigo imaginário, ah, Artemis, por onde vais? tão distante, leve a mim, quero voar também. Um crime as luzes acesas a brigarem com a lua, ora essa, lua cheia. vermelha, brilhante. reflexos. ora ora. pois é, somos Alices agora. alices, café com pão, corre que o trem tem pressa. mas dá tempo, prometo - que nada, amor. prometo.

p.s.: que era mesmo, droga. de novo, esqueço. mas deixa, que o tempo já me faz feliz por si.

Luna
às 13:47

Quarta-feira, Junho 22

Luna: "e esse meu medo de não sei o quê, como se. não sei como o quê, entende. existem pessoas que não dá certo gostar. 1) as que machucam. 2) as que não querem que você goste muito mesmo. :P estou bem, sabe, foram só reflexões. que bom que eu posso gostar de você." acho que enfim com ela deu certo. vai que é só com os sem amor-próprio que sou cruel.
Natalia: e te dá prazer, ser cruel com os sem amor-próprio? ou é realmente sem querer?
Ela: é sem querer, mas eu sei que faço. como que inevitável. fiquei feliz de não o ser com ela.
Natalia: escrevi algo hoje. lembrei muito de uma coisa que você me disse uma vez. que quando você lê um livro, sente impulsos de escrever, que é algo como "colocar em prática o que aprendeu".
Ela: acho que eu tenho momentos louváveis quando não estou consciente. bom, adoraria ler depois.
Natalia: "às vezes é estranho pensar nesse conceito de 'normal', 'normalidade'. talvez seja pelo fato de que isso está sempre caindo em contradição, assim como as pessoas em si. logo, poderia dizer-se que a preferência por 'ser uma metamorfose ambulante a ter uma velha opinião formada sobre tudo' é mais segura do que afirmar alguma coisa com extrema convicção. paradoxos e pessoas contraditórias, misteriosas, podem ser deliciosa e avassaladoramente sedutores, por um certo período, mas, no fim do dia, o que se quer de verdade é um 'porto seguro'. ou não."
Ela: nós citamos essa música hoje. lembra? milan kundera dizia que os extremos são os limites. não há mais para onde ir. e nesse aspecto, você está certa. as pessoas gostam de se acomodar e sentirem que é culpa de outrem, afinal, o limite está ali, que poderiam fazer?
Natalia: o que você quis dizer com "as pessoas gostam de se acomodar e sentirem que é culpa de outrem"?
Ela: a garota tem uma porta na frente. disseram para ela não abrir, mas ela tem a chave. a questão: ela quer sair? ela não pensa nisso, pois ao declararem essa ordem expressa ["não abra."], ela para de pensar e se acomoda. é difícil lidar com um dilema, melhor ficar quieta, sem saber se se quer, ou se não; e claro, porque não. a facilidade com que as pessoas largam seus sonhos me espanta, fico eu aqui no meu canto pensando "deus, louca eu que nunca os deixo." mas se for um dilema genuíno, num certo ponto ele não te permite mais ficar quieta, você inevitavelmente tem que escolher.
Natalia: e eu que nem sei ao certo quais são meus sonhos, além do clichê "ser feliz".
Ela: ser feliz é nobre. e bem menos clichê do que se pensa. envolve coisas tão pessoais que é impossível não ser variável. que te faz feliz? entende? hoje, faz-me saber que alguém gosta de mim e que não a machuco, não dessa vez. importante é não deixar para o futuro. ser feliz é nobre. eu não quero, ser feliz é trair as rédeas que me prendem, e você não tem noção do quão tentador isso é.
Natalia: e quanto ao futuro.. às vezes nem se sabe qual vai ser ele. profissionalmente falando, por exemplo. como podem me dizer pra ter calma, que eu ainda tenho "dois anos pela frente", se daqui a dois anos terei que escolher o que, supostamente falando, estarei fazendo daqui a.. vinte anos? você tem rédeas que te prendem à acomodação? acho que todos têm.
Ela: é a condição inicial de existência.
Natalia: eu tenho medo do futuro, às vezes.
Ela: prefiro a infelicidade à ignorância. ao menos sei-me presa. parece deprimente, mas não. é o mais próximo da liberdade que eu posso estar, que nós.
Natalia: mas ter noção de que se está presa é importante. é o primeiro passo pra se livrar das rédeas. estava com saudades de perder a noção do tempo conversando com você.
Ela: hoje o dia é dos prazeres, Natalia. li o quanto quis, sorri, quebrei a regra que dizia para estudar até morrer, e converso agora tão bonito~ realmente, inesperado. essa é a melhor parte do agora - não seria futuro? não, o futuro é longe e dá medo, gosto do agora.
Natalia: o agora é mais.. colorido. o passado desbota e o futuro é embaçado.
Ela: isso.
Natalia: o que significa o '~' no final de certas frases?
Ela: depende. as vezes é algo como segure minha mão, ou pode ser nostalgia. ou repare nessa frase. qualquer coisa que não consigo expressa no msn.
Natalia: dá margem a várias interpretações.
Ela: bom, então sinta a intensidade da coisa [risos]
Natalia: comece seu post assim: "querido diário. hoje foi um dia INTENSO."
Ela: viu, eu sei fazer piada de mim mesma.
Natalia: isso é estranho, isso é legal. eu ñ consigo ser nada o tempo todo. ñ consigo conversar sério o tempo todo. e ñ é a qualquer hora que você me pega sorridente.
Ela: já aconteceu de você querer algo, não sei o que, mas não achar justamente por não saber o que?
Natalia: como se faltasse algo, e você fica na ânsia de conseguir?
Ela: é. mas como não sabe, não acha fácil, sempre que isso acontece eu como pão. pão enche, sei lá.
Natalia: que mistura louca de metáfora com a realidade.
Ela: mas falo serio. passa leite condensado como se fosse manteiga. tão bom.
Natalia: tenho um amigo que coloca leite condensado em tudo. até no almoço. tipo arroz e bife com cobertura de leite condensado.
Ela: tchau Natalia, vou assistir futebol com meu irmão - ele disse "fica aqui assistindo comigo?" e eu não resisto. um beijo~ e um prazer estar com você.
Natalia: cuide-se e fique bem.
Ela: fique bem. tão ela, mas hoje é seu. fique bem.

Luna
às 21:03

Domingo, Maio 22

E na cabeça minha martela a voz fina de Soraya, nossas meias-conversas que não me largam por não terem fim, uma hora dessas horas ou outra, você vai precisar de um tapa.
- É o último dia. O que você está fazendo se prendendo ao que nem quer? Ficará velha com caixinhas de fotos e dentaduras, que nunca quis.

[...]
Não queria lembrar do que passou, embora sempre mantivesse vivas as idéias antigas que era para lembrar que amava o agora tanto, sempre o tinha feito, sempre o agora, enquanto o futuro era um mundo novo, chato e tedioso: havia brigado com o futuro ¿ porque sabia o que esperar e isso era o que assustava, se fosse sem graça. Outro dia, encontrou na rua a menina de conversas abstratas e cotidianas, mas não idiotas. Decidiu mandar flores, não sabia se tulipas ou lírios brancos, queria todas, todas as flores, e mandou um livro que lera outro dia, e que era sua cara, senão, ao menos era bom. Uma poesia sem fim, o livro e elas.
Aprendeu a falar alto, que a propósito não leva crase e que se quer ir a uma festa, precisa ser a festa certa. Ela era infame, reles, vil. Brincava de ventríloquo com alguéns, e tão sem querer que já fosse parte de sua índole relapsa.

Ela costurava uma boneca de pano, com retalhos coloridos, fez como sempre imaginou: olhos de botão da camisa do pai, um caído, meio solto. E de repente o mundo girou, e ela estava num palco, o foco nela, sentada no chão, com a boneca. Era um teatro, com bonecos amarrados a cordas, que dançavam ao seu redor, ela não existia, um vão no meio vazio; tão bizarro, uma dança pagã, marrom e vermelho, um vermelho imperioso, escuro. Os bonecos pareciam clamar por um deus, um divino que os acolhesse, que lhes perdoasse em sua miséria ¿ pois eram condicionados a serem humanos e assim, subjugados, intensos e débeis. E tudo o que lhe vinha era o desejo inquieto de ser ignorante, saber é ser infeliz, é olhar para o real. Mas seriam reais, os seres? Seres numa metamorfose ambulante, contínua. Agora, usavam turbantes, cobras em espiral, balançavam chocalhos, badalando numa harmonia impossível. Tinham crateras no estômago ¿ não havia um estômago, era a própria cavidade. Pareciam achatar-se no ar, uma mão invisível? ¿O invisível não é irreal: é o real que não é visto.¿ Afinal, o que era aquele teatro de fantoches, sua parte no inferno ensurdecedor que lhe cabia, a mediocridade, o desespero maior é saber que não sabe. E nisso, sua agonia cessou. A luz apagou, os bonecos, achatados a um grão e agora o escuro era mar, um sufoco infinito, que seria dela, saber que não sabia, ah, agonia! E só lhe restava o trapo costurado, agora era caixa, um caixa de vidro afogando no mar, e a boneca encostada, não tinha voz: era de quê? A menina de areia e seu trapo com olhos de botão, mediocridade. Uma mutação inconsciente, a rebeldia da mente que não consola, não perdoa: o inconsciente.

Luna
às 10:59

Sexta-feira, Abril 29

e agora diz a mim, aqui, escreveste não vinte páginas? pois digo a ti infinitas [menos um]!
ai se sesse diz:
figuras, fulguras ó brasil forão da américa!
s. diz:
toda a metafísica, talvez, extrapolando especulações abstratas, abstraídas ou, como queira, estritamente racionais, é o sentir
s. diz:
o sentir inelutável que se debate nas amarras do Eu.
s. diz:
o verdadeiro sentir e consequente viver seria ser-se nuvem.
s. diz:
nuvem, tão nuvem quanto somente nuvem, mais livre que um passarinho, por não ter de escolher:
s. diz:
e não ser condenado a ser livre."

Luna
às 21:00

Domingo, Abril 24

e que dia mais triste. cheguei até a pensar que a vida odeia sorrisos, e que o mundo conspira contra qualquer mostra de prazer, ínfima que seja, capaz até de girar ao contrário, só para reverter a ordem que se preza. um caos. e hoje era o dia, o dia do 3o e do 1 ano. hoje era dia de flauta, de guerreiros, sonhadores. dia até de choro, mas mesmo a alma estava seca. sonhando em menina ou mesmo uma garota lá que só por telefone. e vai que do outro, desse nem pensei, pois ontem havia tanta gente e valha, até medo.

e ó, a lua, tão divina, por nós.

Luna
às 19:59

Domingo, Abril 17

danou-se. danei-me.
eu odeio chuck barris, eu li o apanhador no campo de centeio e não sou serial killer e amo o anti-sonho americano, eu leio mais do que gostaria e certamente menos do que deveria, eu amo the white stripes e não strokes, eu sou viciada em paciência spider e no fim, é só o que faço no computador. hoje eu disse vá embora querendo dizer fique, mas odeio você agora. mas acho que é coisa sem concerto, nem mesmo flores, nem mesmo cartas, acho que nada. hoje eu quero morrer, sabe, mesmo depois de ouvir marília falar de filósofos e eu pensar sobre direito ou sociologia, uma paranóia só.

[conversas estranhas.
- "e muito, assim"
- eu que não.
- que há com você?
- doente, me fiz doente.
-

Luna
às 19:55

Quinta-feira, Abril 7

pensava ela que o homem nada queria. e foi assim, ele dizendo que se ia pelo mundo, ver gente; fugir das coisas, ela pensava. e por isso ficou, na tristeza dos restos que se esvaiam pelos dedos. sobrava-lhe o alento de outrem, que era seu consolo, e claro, o 3o, que não era menos importante, aquele a quem desejava ser. chorou, nem sabia se por feliz ou triste, pois tinha sido imensamente feliz - mas era por pouco tempo, ao menos se fosse por inteiro, pois o homem ia, e nem era mais garoto; era homem, pois no dia que decidiu ir, virou homem e largou a meninice dela, ela só desejou que fosse infeliz, para voltar, queria que fosse, para morrer ao menos uma vez de dor e saudade - mentira, amava tanto que só desejava um fim feliz. sobrou dois, e com eles faria a divina trindade, ainda que de dois. e com eles ficou, que fim se daria, afinal, diga-me, que quer? vai, ainda depois de vê-la no dia que marcaram, não, não acredito.
e tudo isso, parecia até ela ser egoísta, seria? nem sabe, mas pensou, pensou, por isso quis ir. nem era, não com intenção, pois afinal, como poderia, se no fim, queria apenas sorrir, ou sorri-lo. os três, só precisava dos três, não vai, garoto, nem vai.

Luna
às 18:01

Domingo, Março 27

p.s.: o mundo precisa é de música. o resto vira resto, no nada que só
aumenta, diminuindo na ignorância... talvez todos saibam e só não queiram
assumir. =) fico feliz por estar bem, por estar, só estar. e, o melhor, não
estar sozinha.


alguém disse, eu olho, leio e sorrio.
mas vale para três, inclusive quem disse,
e quem quiser sorrir também. só, sorrir.

Luna
às 17:18

Quarta-feira, Março 16

oh, e ela diz, e ela fala - declama, clama, chora, esperneia, grita, liberta. e só palavras soltas, quem é, quem és, menina, oh, menina, quem é a luz que me alumia e me cobre de branco e névoa, me atravessa, come, engole, mastiga, digere. eu quero a cultura, o nato, o morto, o pato.
quero ser, do inverso, o converso, o lugar, alumiar. ser, estar, viver, brilhar, cair. caiu? FOI LINDO.

"[...]
O infinito impreciso, escrever numa calçada, beijar o beijo que recebo sem ganhar, ganhar desejo que eu recebo sem falar.
Do infinito preciso, confesso, quero ler como um possesso - escrever, ainda mais, quero tanto e quero tudo, só não quero é ficar mudo, desse jeito

continuo. "

[EDIT]
adivinha. adivinha, mão e luva, a música - adriana calcanhoto.
chuva.jpg

Luna
às 15:49

Segunda-feira, Março 14

- eu penso que um dia eu não vou descobrir o que quero, digo, nenhum dia.

- eu também não sei o que eu vejo em você. eu, em você, vejo arte.
o que pode ser alguma coisa no futuro, mas talvez não

- é que não sou objetiva, sou dispersa e sou da vida. nao sei ser alguém, mas também não diria que sou ninguém.
não me importo o que esperam, mas bah, sou de olhar paixões, no fim, acho que é desculpa, quero brincar e só.

- a arte que é objetiva em si mesma não é esquisita, digo, limitada ao ponto de dever ser questionada?
a objetividade é necessária, mas só existe válida enquanto subjetiva, também, entende do que falo?

- mas eu nao quero futuro igual. não quero. não é revolta sem causa, é a causa sem revolta.

- futuro igual aos passados, você diz? numa frase até um tanto satírica.

- viu, é perigo - finjo desmaio. não quero, não quero, não vou. vou ser errante da vida e apenas apreciar o que ja é pensado demais.
vou fazer filosofia e rir dos que não sorriem.

- já objetivou. objetivar no sentido de ter objetivo, não de ser.

- o meu objetivo é não ter. mas é impossível e você ri, ri de mim.

- é divertido, só.

Luna
às 18:08

Quarta-feira, Março 9

Ele amava as paixões, era queto. Queto, assim mesmo, língua de povo, jeito de gente ¿ havia de escrever tudo errado, pois amava a gente sua e seus sotaques populares. Calado, via tudo e só pensava. Um dia acreditaram que ele era mudo, mas até poderia ser, nunca se soube mesmo, depois de tanto tempo sem falar, talvez nem conseguisse. E sempre estava com olho de lágrima, sorriso de canto de boca, que nem beijo escondido e boca vermelho carmim ¿ parecia viver no frio, mesmo sendo da terra do sol, de chão quente e mangueira, sua boca era aquela e aquela sempre fora.
Um dia foi que estava quase brasa o chão, de tão quente que o sol foi. Uns até disseram que era o fim do mundo, que o sol e cair no meio do mar e se queimar todinho de tanto que seria o fogo. Mas ele nem ligava pra conversar de fim, queria era ver o começo, a graça das paixões ignoradas ¿ essas que de fato eram com graça, tudo feito porque era e não por dizer. Estava sempre a olhar a lavadeira da casa do vizinho, por entre os buraquinhos dos tijolos pingados e grade. Era bonita, ah, e fazia de desculpa sua paixão por perfeição. Era ela capaz de passar o dia a fio só para tirar a mancha de sangue que tinha no lençol de casal, bem se sabia do que era aquilo, mas patrão senhor dava-lhe na cara só de ver que não sumira, fazia mas não queria ver, ela nunca entendeu isso, home é bicho doido, pensava. E ele sabia que ela sabia, que ele olhava-a. com tamanho gosto e molhava o carmim dos lábios do mesmo jeito que fazia quando ia comer cozido. E ela também sabia que ele mentia pra si, que nada de paixão tinha, senão a de deus por seu corpo. Corpo esculpido, quase pecado ¿ ai, céus, que pecado. Mas ele nunca ousara, só olhava. E ela, no dia em brasa, tão graciosa que nem se acreditava. Era até motivo de lenda.
Houve, então, uma vez em que a mulher lavadeira disse oi para o homem das paixões, e foi um oi de quem sabe o que diz, o que quer e o que o outro pensa, tudo isso, em um oi? Ele pensou que ela era a paixão em pessoa ¿ só poderia, com tamanho poder em um só oi. Mas paixão engana, sempre faz a gente de traste e mente, só para nos agregar e deixar o calor consumir. Eles estavam no quintal da casa dele. Ele nem era velho, mas acontece que já tinha casa própria e dinheiro de sobra, daí que podia ficar só vendo as paixões ¿ sem maiores complicações, até o dia em que a lavadeira disse oi. Foi naquele dia que a perdição chegou, que teve fome de miserável ¿ aquelas que devora boi todo e ainda quer farofa. e como foi bom saciar a fome. Fez amor que nem animal de floresta, teve prazer até aliviar a dor. A dor era o vazio, um vazio gigante, avassalador. Eu olhei você, um dia, sabe, sussurrou ¿ e espantou-se. Só olhava, e agora, que fazia? A perdição, oh, deus, oh, céus. Que dor, dor e dor. E ela foi-se, dissolveu no meio do mato, ele pensou valha e arredou o pé dali para nunca mais. E só sabia cantar comida ¿ depois do dia da perdição, só fez andar de telhado em telhado, atrás daquela mulher que tinha cheiro de suor e sabão em pó. Era negro gato, agora. Telhado em telhado, amargurado. E não falou mais nada. Só telhado em telhado.

Luna
às 15:26

Domingo, Março 6

hoje o dia estava lindo. o céu era azul como tinha que ser, e as nuvens, macias, daquelas em que rolamos e da qual nos alimentamos, sonhos. até parece que o tempo entende que hoje é domingo e dia sagrado. dia do dia ser bonito. é, até parece.

escuta, tarancón, ah, vinil, vinil.

Luna
às 13:06

Sexta-feira, Fevereiro 25

Não queria tornar-se estéril, estéril em pensamentos, em ventre. Ser mulher é glória. Queria o cheiro de jasmim que o quintal tinha, era um perfume inebriante. Seus mais belos sorrisos tinham ficado ali, tão sóbria era a casa agora, aquela mansão escura e marrom. Deitada ali no chão, quase jogada, sentindo o gélido arrepiado que lhe dava, quase sem sentidos, delirava, queria jasmins, ah, como queria. O sangue ia escorregando por entre os azulejos portugueses, parecia, estava anestesiada, tonta. Não sobraria um fio sequer, como era vermelho, um púrpuro quase uniforme, deslizava rápido, logo alcançaria o jardim morto, purificando-o. Seu sangue doía-lhe, em seu destino inevitável, mas o que lhe atormentava a alma era estar ali caída e não delirante o suficiente para desmaiar ¿ teria que assistir a morte do ventre, uma profanação, pensava, uma mágoa funda, profunda. Sabia que se viva fosse, sonharia com a desgraça pelo resto de vida infértil, tão quanto tudo ao seu redor, o jardim, a casa marrom, a própria penumbra. Uma vez, havia lido um livro, adorava abrir uma página e ler um parágrafo, largá-lo e dar por entendido o que havia de aprender com aquele. Lera que cada qual é dono da própria morte, e que deve haver-se com ela, só; ademais, poderia um alguém auxiliar tua amizade com o perfeito, e dar-te conforto e perdão; pois dizia que nós éramos seres de pensar e pesar, e se havíamos de assim ser, que precisássemos de perdão, era o preço da consciência e morte. Outro alguém disse que a morte era monótona, nada tinha de interessante e por isso, não queria morrer. Odiara aquilo, odiava desculpas para a vida: Quer-se viver, assuma, ora, quantas injúrias e covardia, um pecado a desonra com que era tratada, pobre vida ¿ e além do que, a morte era bela, sedutora e extremamente excitante, nada tinha de monótona, quem o disse certamente estava fora de si, ou pior, estava em si. Tinha ódio aos não-sábios, quanto desperdício de vida ¿ tão infortunada, era a vida, não a sua, a vida em si, sempre paciente e ingênua.

Estava só, não queria morrer só. Embora a morte fosse bela companhia em quase fins que antes tentara, agora era de verdade e ela sabia disso, sabia que tinha virado gente grande. Tão triste ser gente grande. Divertia-se tanto, ah, como havia rido das mais tolas brincadeiras. Por instantes, parecia valer, tudo aquilo, seria uma nova descoberta, dessa vez era legítimo: sentia frio na barriga, e sabia, pois era um capricho, que só se sente isso quando é novo de verdade. Arrepiou, o fio que lhe restava de consciência fê-la sorrir. De repente sentiu um gosto férrico na boca, um mal-estar, suava. Abriu os olhos, por fim, olhava por um ângulo difícil, havia folhas secas no chão, não mais secas ¿ o sangue as consumira. As portas escancaradas, sentia-se nua, que havia afinal, de estar fazendo ali, caída? Era a própria soberba, não conseguia conceber o fato de morrer ali, apodrecer ao sabor do vento. E uma lágrima caiu, adorava quando caía apenas uma, era o choro mais belo ¿ e no entanto o mais escandaloso, um escândalo mudo. Sentia as batidas da percussão de um maracatu, batidas pesadas, que puxa junto, lindas, sentia um nó quando ouvia, elevava a alma ¿ coisa de filme.

Deu vontade de ir embora. Queria ouvir gente, comunicar: voltava para seus sentidos primitivos. Sentia fome, uma fome avassaladora. Encontrou o bicho e com o facão, dilacerou a carne do animal com tal gosto que se passaria por selvagem: o manto pintado de vermelho-púrpura, uma tela modernista em movimento, ah, sempre a arte, e no fim, uma carnificina, a arte. Comeu cru, um instinto, precisava de carne. Após comer, ainda teve forças para gritar, um grito selvagem, desesperado e grave. Tombou no chão, a cabeça lascada pelo chão português ¿ uma cena espetacular. Lambuzada de sangue, a boca, o rosto encostava a bochecha no chão frio, o sangue que se espalhara agora para todo o ventre e pernas ganhava o piso. Um bicho entrou, pela porta do jardim morto e cheirou a criatura, lambeu e correu.

Quem chegava agora era o homem. Ele andava com um porte de macho, um cheiro característico desses intrínsecos à criatura. E correu de encontro ao corpo esparramado, olhou o sangue disperso e também por ser criatura, agiu como tal: apanhou o corpo gélido e levou-o para fora. Correu pelo bosque com cor de casca de castanha, saiu da casa e entrou na mata fechada. Correu, e o bicho veio atrás, corria rápido como lebre, quase nem era homem. E no meio da mata, houve um círculo de chão limpo; pôs ali o corpo e num brado oscilante, chamou a tribo. Tudo aquilo não passava de delírio. Acordava, a cena mais bela já vista, uma ninfa-deusa tinha brilho em seu corpo todo, a própria luz em criatura, com traços graciosos e macios ¿ a graça espontânea. Quando levantou, ainda tonta, como havia de ser, sentiu um arrepio súbito, os pêlos eriçados, o corpo nu. Havia folhas e janelas de palha, janelas estranhas, avessas, como que no teto e chão. O chão era terra moída, fina, que nem praia, mas era terra escura, úmida. Terra-roxa. Estava em cima de palha, palha quente, o sol a pino. As copas das árvores balançavam, a dança assimétrica, mas congruente. Tudo brilhava tanto, cegava-lhe, tudo tão grande, as folhas lhe agravam, os sons de bicho e folha. O homem veio de novo, e excitou-se com seu jeito de macho e cheiro. Aproximou-se dela e puxou-lhe o braço com tamanha certeza e abraçou o corpo, seu, cheirou, sentiu e saiu da cabana. Ela, como que desvendando, seguiu o cheiro e ele corria, ela tentou, com seu balançar de graça. Mas de repente o ar foi ficando pesado, amargo, uma chibatada nas canelas, em seu corpo macio, um negro-gato, andar afogado, afobado. Então caiu, débil. E caiu tão triste como um rei do trono, largada no chão pela segunda vez. Escutava os gritos retumbantes e os sons que ecoavam do mata, um ritual. E agora estava ela lá, perdida. Eram batuques de tambor de pele de bicho. Ele chamou-a de mulher, pois glória era ser mulher. Mas como poderia? Havia o ventre perdido e então chorou, exagerado era, e gritou outra vez. Os olhos dele eram pretos ¿ um preto fundo ¿ e grandes. Fitava-lhe com ímpeto, aquele olhar das grandes paixões de carne e silêncio, então parou, ela.

Com os olhos vermelhos, um contraste bonito, ela via. Tocou o peito da criatura à frente e ele veio, devagar, para ela observar ¿ ele adivinhava-lhe os pensamentos ¿ e no entanto, isso a impacientava, mas ela resistia, pois estava frágil. Quando suas faces estavam tão próximas uma da outra que já não era possível distinguir a respiração e os olhos agora pregavam uma visão dúbia do mundo, ele a tocou. Nunca fechavam os olhos, nem mesmo piscar: mantinham um foco, e esse era o objetivo absoluto, um pacto não selado ¿ mas esses eram os mais fortes e inquebráveis. Não eram necessárias as palavras, nem que fossem sussurros, não precisavam de sinais ou de perguntas. Eles eram, e isso significava muito mais, eles estavam nas areias, escritos em letras cursivas, apagadas pelo vento, assim como toda estória que há no mundo, nas areias. O vento leva, mas quem deixa sal é o mar, mar que cura e faz sarar até a mais profunda das feridas. E ele é quem dá gosto. Gosto que há, instiga, porque faz arder até perceber que no fim, que há senão dor ¿ a gente quer prazer, para aliviar a dor, disseram. Dor é bonito, e a superação traz o sarar. Coisa que acontece só, um equilíbrio e as leis naturais: isso era o que eles eram, agora, destino e areia. Sentiu a volúpia escorrer em um fio de prazer profano pela espinha, libertara-se do sangue. Tão sutil, mal percebera, e assim também foi sua ida, pois acordava de seu sono real, quase deusa já era ¿ havia sido, ali. Escorregou pelo chão até o fogo e esquentou as mãos, as mais belas chamas que já vira, de todos os fogaréus, aquele era é o maior e magnífico. A canção da floresta era tocada em tambores e folhas, já era escuro nos céus e desejou estar ali pela eternidade. E assim também adormeceu, com as máscaras em sonhos, tão belas e os enfeites e pinturas no corpo nu. Que fizeram dela, uma família havia. Agora era de um Povo, agora era o Povo. Feliz era agora.

Havia então, um pensamento maior, uma sensação de estar junto, e principalmente de não estar só. De ser povo e pensar como um, de defender quem te defende e amar a terra que tanto te quer. No fim, tudo não era mais que instinto e selvageria: o ser e sua não-razão era o que precisava, nada de desculpas ou explicações.

E repetia, sempre, Não. Não é desculpa, não quero desculpas. Quero ser e isso basta. E seguia, um tanto sem rumo, apenas lembranças da terra bonita de tambores e máscaras, e no entanto tão óbvia que nada mais poderia ser senão encantada.

Luna
às 15:23

Quinta-feira, Fevereiro 17

já não lhe disse que existem leis que regem o universo. e se o tempo vem antes, perde-se o bonito. e se o tempo vem depois, ah, já vem tarde. e tempo é rei é deus, ah, o tempo. ele sabe se impor menina, sabe sim. e tão belo, tão certo: uma verdadeira imponência.
com ímpeto, com violência. bem assim, impondo. ah, ah. do vento, escute.

Luna
às 20:28

Sábado, Fevereiro 12

- hoje eu perdi a inocência. Morri pela primeira vez, na verdade, mortos morrem de olhos fechados ¿ as crianças dizem. Mas hoje eu abri os olhos, abriram para mim. Eu quero ser criança, anseio isso como nada mais nem mais ninguém ¿ embora dizer isso soe estúpido, pois todos anseiam de forma diferente e intensidade idem, mas é bonito ouvir isso.
- não sei. Noves fora zero, dividido e jogado fora: lixo.
- e o que pensa, você?
- penso eu, penso eu que não se deve pensar agora, ora, não é tempo ¿ ou sem tempo.
- e por quê?
- por que você me trata que nem tonton?
- e que é tonton?
- a propaganda, lembra?
- não.
- tolo. Uma criança pensaria.
- não humilhe.
- não julgue.
- não o fiz.
- que importa?
- você.
- não sou coisa.
- mas é gente e você importa.
- a quem?
- a quem a ti, quiser.
- todos querem crianças.
- estás carente? Que ridículo.
- um céu de estanho, disse alguém.
- estou assim, nem sei, um amor aos cariocas, céu de estanho.
- não entendo, você fala ao vento.
- você está perturbado. Você a conhece, ela pensa demais. Você chora, você faz coisas estúpidas e no fim se ferra. E pára. E chora?
- suas frases têm estruturas lógicas muito confusas.
- e eu vou pular a qualquer momento daqui de cima 9-9
- não vai não. mas quer dizer, porque é tolo.
- ...
- eu vou sair. Ela está chegando e irei vê-la. Vamos?, nada de violão. Mas quero a música. Cante para mim. Odeio aquele lugar, mas é pra lá que vou.
- você quer ser grande sem ser.
- isso se chama sonho. Eu primeiro preciso desejar algo, para depois ser. Percebe a lógica?
- eu sei. Mas eu digo: você quer ser grande sem ser.
- as aspirações hoje são pequenas: porque eu posso até ser grande, mas não posso ser pequeno.
- uma precisão tão desnecessária.
- verdade.
- triste agora. e por um instante esqueço que amar, amar é quase uma dor.
- e você nem me olha.
- e eu quero?
- quer.
- e quem é você para dizer do que preciso ou quero?
- sou o seu amor. Menina, amaria estar mais, mas devo dizer-te. Espero que sua tristeza se despeça sem mais delongas, pois está ficando inconveniente.
- às vezes, eu escuto o que talvez não quisesse. É a física. Esquecemos a música, as cartas, mas não o beijo.
- você acha mesmo que te deixaria sem beijo? Ah, menina, eu posso brigar, mas amo beijo.
- só o beijo?
- você gosta de ouvir, ou é charme.
- charme.
[sorriso]
[...]
- uma agonia deu agora, aperto. Quase suf[ô]co, mas não sufoco.
- você é incrível. Uma mágica só, tão incongruente, quase austera, mas plausível: doce.
[cora]
- sou..?
- sabe que é e se desfaz.
[língua]
- porque baixa a cabeça, menina? E ainda ousa cobrir o rosado belo.
- desculpe.
- me olhe.
- seus olhos são penetrantes.
- e ela me olha.
- ...
- eu amo.
- ah, sim, ama. Senão, que afinal, seria de ti, alma pagã e descrente?
- seria teu.
- e meu seria.
- não te quero. É muito preciso para ser meu, que ia fazer de ti? Prefiro cuidar.
- e que faz agora?
- cuido.
- ah, se eu tivesse você.
- e que graça?
- o mundo.
- não, não sou tão grande.
- é gigante.
- sou pequena, sei bem o meu lugar, talvez isso me faça grande.
- e não te basta ser grande por si só?
- você não quer saber o que é um buraco negro? Basta-te?
- entendo-te.
- sempre.
[...]
- fale-me algo. Conte, sobre física quântica.
- que sei?
- você é deus.
- prefiro eu pensar, pois afinal, que há em não ser um deus?
- insiste você?
- sempre. Bem sabe.
- sim, sei.
- e ainda pergunta.
- é seu charme, gosto de percebê-lo sempre.
- vá dormir. Já é hora de princesas à cama.
- então se vá você.
- ora, quanta pretensão. Não me rende.
- e não queria.
- todas as coisas belas dormem cedo, veja as flores e os pássaros.
- não era você quem queria voar, não eu.
[língua]
- sim, quero. Mas você se escora em minhas asas e voa junto, não se assente tanto.
- você me descobre.
- amanhã. Quero o apito do engenho de flores, chamando para trabalhar.
- e você alumia toda a terra e mar, como uma aurora em pleno inverno do sertão princípio de deserto.
- e ela profetisa.
- ou profana.
- ...
- tão lindos os seus silêncios súbitos, quando o mais obvio seria a resposta imediata.
- eu não sou disso. Não agora.
- não fique séria.
- não estou.
- não me olhe assim.
- como?
- não sei, assim.
- estou fria.
- e é? Morta. Viu, não fique séria. Sorri?
- ...
- para mim?
[sorriso]
- e ela sabe!
- não abuse.
- desculpe [riso]
[língua]
- um beijo, menina.
- não sei mais se sou você ou eu.
- se perde no diálogo?
- uhum.
- um beijo.
- vá, é hora.
- eu sei. Não quero.
- já foi.
- eu quero aprender sobre ondas.
- eu lhe ensino, é assim.
- desenha?
- por que tudo precisa ser desenhado?
- porque gosto.
- humpf.
- ó [língua]
- te amo.
- você já disse.
- ... não, eu disse ¿eu amo¿
- é, mas era isso que queria.
- e quem é você para saber?
- sou seu amor.
- não me repita.
- se você não obrigar.
- promete?
- não quero.
- então promete sem prometer?
- tchau.
- eu te amo.
- prometo.
- tchau.
[...]

Luna
às 21:08

a ousadia, está anotada. apagada.
como a vontade foi entendida.

e ele diz: [as aspirações hoje são menores:
"porque eu posso até ser grande, mas
- não posso ser pequeno.




e é? desculpe. que que é isso?

Luna
às 14:04

Quinta-feira, Fevereiro 10

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.


Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.


Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.


Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?


Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.


(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)


Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.


(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)


Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente


Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.


Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.


Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,


Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.


Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.


Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.


Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.


(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos, 15-1-1928

Luna
às 21:01

Quarta-feira, Fevereiro 2

cinza diz:
acho que é perigoso se envolver com quem não tem mágica.
amarela diz:
não seria também com você, mesmo com mágica? =)
cinza diz:
é. sou uma pessoa que machuca fácil. e também que subestima muito, e superestima poucos.
cinza diz:
e é impossível não ter nojo de mim depois que eu machuco.
cinza diz:
você poderia conviver com si mesmo sabendo disso?
amarela diz:
eu vivo.

Luna
às 16:23

Quarta-feira, Janeiro 26

"Ela dormia sob uma nuvem quando percebeu uma flor que nascia. Nascia do seu lado uma flor tão azul, tão pequena e brilhante. tanto, tanto, que, não obstante o seu medo, observou o novo ser. novo ser que lhe sorria. de onde seria? e não é que a linda flor falar sabia? disse-lhe ter sede e, por ser uma flor de sonhos, precisava da água mais pura.

"mas, ah, sempre amiga, onde hei de encontrá-la?"
"não te dizser se pode, moça, menina, tens de achar."
"e se falhar o meu intento e vacilar o meu pensar?"
"aí, então, volte a dormir, que já eu estarei morta."
"morta, dizes? não permito é uma afronta: tão linda rosa..."

Flor, rosa, a paixão nova. Nova em sua sede, mas onde procurar?

"olhe, estou indo, espera. volto, confia, trago a tua água"

Andou, andou, andou. voltou, esperou, chorou, pensou que não podia. E se morria a sua amiga? tal briga não perdia, precisava. alimentava-lhe a brisa morna que emanava do seu ser que importava. que se importava. correu, choveu, caminhou a mais não poder, já não encontrava viva folha. resoluta e já tão triste, procurou de volta a flor que jamais arrancaria. ao vê-la inclinada e visivelmente fraca, ajoelhou-se o quanto pôde. tocou o mais leve quanto pôde, olhou o mais contido quanto pôde, mas já caíam as lágrimas fujonas.

"não pude, perdoa-me...", em soluços sussurrados pra não a flor tão sua, nunca sua, posto que tanto a quisera.
"só tu podias e eis que vivo. Da água mais pura, eis teus sonhos. Dos teus sonhos, eis-me contigo."

uma dedicatória, menina~
afinal, quer texto mais lindo, esse que você escreveu?

Luna
às 14:24

Domingo, Janeiro 23

sobre o ódio e outros mais

Tanto ódio, dentro de mim. Ele sussurra no meu ouvido, bem baixinho assim, de mansinho, sinto sua respiração pesada, quase exausta, pendurada aqui, por um tempo. Minha orelha aquece, a respiração me deixa impaciente, até enfurecer por completo. Tiro os quadros das paredes, na verdade arranco, com uma voracidade que não conhecia em mim mesma. Mas no fim, a gente pouco conhece, e menos ainda sabe.

Eu corro pela casa, despido-a de forma iníqua, sem deixar um vestígio sequer, nem mesmo os pregos. O sussurro não cala, agora é ensurdecedor. É engraçado como o silêncio pode ser estonteante, quase um delírio, mas é apenas uma dor de cabeça muda, daquelas que agulhas furam seu couro cabeludo. Posso até desenhá-las entrando na minha cabeça, perfurando tecido por tecido, célula a célula, é perturbador, posso ouvir até mesmo o mais remoto barulho que se passa na casa silenciosa. Agora, são tantas que poderia cobrir cada poro que me resta na cabeça sangrando. Não corro mais, ando sinuosamente, esbarrando nos objetos que se passam. Não devem ser nem seis da noite, pois ainda não está escuro. Mas a casa parece vazia, carece de luz, em dúbio sentido. Dói, e só penso nisso, em todo o meu tempo. Afinal, abrando o ser e cedo à força que puxa para o chão, tão senhora quanto a gravidade, extensa e pesada, mas não é a gravidade que me puxa. É o ódio, a ira do mundo, que engoli e se instalou na minha barriga, tão grande é que ando torta como uma grávida, mas não é vida que carrego. Ousaria dizer que começo de vida, até pode ser.

Odeio por todos, e por mim. Odeio a mim, odeio os outros, odeio os ignorantes, os cegos, os errantes. Mas odeio, porque invejo, e no fim, odeio porque eles são eu. Sou todos eles, e o resto. A escória, o desprezível, o triste. Sou a grande depressão, em clube da luta; sou uma bala, bala de fogo, de desejo, uma paixão. Volúpia, peco em respirar. Os corpos, não, eu quero sombras, quero almas, quero cérebros gigantes. Nuvens, que nuvens sobram, uma subtração eterna de valores, de amores. Uma descontração, uma arritmia, um descompasso. Sou o que sou e nada mais, sem pontos ou prontos, vírgulas e uma alternância constante em suas inconstâncias, ah, a leviandade do ser, é tamanha. Que fazer senão, desprezar meu próprio eu, supremo, pois nada mais bonito que o egocentrismo. Minto, o amor, a relação de amor e ódio, ah, essa é unânime. Mas quem ama certamente é egocêntrico, também penso que só odeia quem já amou e vice-versa, uma co-existência ignorada, mas é assim porque é sublime, tênue, necessária.

Divago devagar pelos cantos, devaneios infinitos, nem sei mais que escrevo, estou a pensar e me desfaço. Não sei o que fazer de mim e do resto, que o resto morra. Eu quero saber de mim e de mim saberei. Mas não sou nada, nunca serei nada, não posso querer nada, à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo, diria ele, e repito eu. Mas penso também pois eu penso que toda pessoinha nesse mundão todo deve ter seu cadinho ¿ também em sentido dúbio ¿ de felicidade, diria ela, e repito eu. Afinal, em quem crer, na infância prometida, aquela a quem fui prometida desde menina, eterna e esperta, ou no poeta que prega o intenso e contesta seu próprio nome?

Por fim, a dor de cabeça passa, eu entro em conflito e levanto-me do chão. Sou solitária, sou feliz. E odeio meus quadros de mares e céus. Assim como levo sempre um tanto de ceticismo e de outro, meus sonhos, numa sacola colorida.

Luna
às 11:45

Sexta-feira, Janeiro 21

1. matar o boi-bumbá
2. servir ao exército
3. entrar numa perseguição
4. sonhar acordado
5. oferecer rosas aos deuses
6. gritar para o amor
7. ceder ao amor
8. voar - voar no mergulho mais profundo, em direção ao mar
só então chegar à exaltação máxima, o puro-êxtase-puro.
e ainda acrescento:
9. sorrir
10. rir-se por horas - sem motivo
acho que já posso ir para o céu.

"a flor do mal me quer e eu a quero também, só para saber o gosto que a morte tem
e quando os espíritos voltarem da guerra, encherei os olhos com a mais suja terra
e ferrarei a mula, como a portugal. eu e a minha bananeira, duas bandeiras do mal."
a flor do mal, papete. - maranhão, bandeira de aço.

Luna
às 12:42

Quinta-feira, Janeiro 20

não há nada a publicar. nem a dizer ou contar. que importa o blog, tão estúpido. não quero falar agora, ou aparecer. quero primeiro concentrar minhas forças na função mais básica, respirar. pois é-me difícil. o ar rarefeito pelo psicologico. tão triste, o coração miúdo. ninguém no mundo agora precisa saber de nada ou ler ou ver. estou egocêntrica e me concentro nisso. ignoro os sentidos ou a dor, que é externa. tenho a resolver poucos casos, mas grandes casos. fiquem com o resto, se resto houver.

Luna
às 15:16

Sexta-feira, Janeiro 14

há tanto a dizer. mas guardo, porque é segredo. e segredos tem uma razão de ser. se vissem quantas letras o dicionário gasta em tal palavra, eu ao menos, rio. tão simples, mas tão grande. e faço-me breve, não quero escrever, quero sentir. agora e nem penso. é, não quero escrever.

venus in furs
uma sessão punk underground. playlist para o hoje; que mais?

isso foi algum dia antes de hoje;

riders on the storm
bang!
heaven knows i'm miserable now
god save the queen
heroin
my sweet prince
gimme danger
i would die for you

velvet underground
yeah yeah yeahs
iggy pop
garbage
placebo
the doors
the smiths
sex pistols

Luna
às 11:32

Quarta-feira, Janeiro 12

~the smiths - heaven knows i'm miserable now

nada tem um fim, que importa afinal. poderia compreender, nunca perdoar. nunca concordar. choraria? sim, nunca hesitar. beijaria? sim, pois amo beijos, quantos me derem, de olhos fechados, na mão, ou no rosto. seria infeliz, tão infeliz sem beijo ou sorriso. pena é você não entender. mentira, porque você entende, todos entendem, mas é que não importa mais entenderem ou não. eu sou amante, amante do tempo e noiva do amor. sou eu e ninguém mais, tão meu e de ninguém mais. sou feliz, eu sorrio, rio com você, com a menina, com o leãozinho. sim, o leãozinho. tão leve, leve em tudo, menos intensidade, pois é intenso, sou eu. e ponto, ponto e ponto
sou feliz assim, e nem importa ser, é pra sempre, ser amante é pra sempre e nunca mais. esqueça o sentido, a convicção e o resto ponto
[mas é doce morrer neste mar de lembrar, e nunca esquecer. se eu tivesse mais alma pra dar, eu daria, isto pra mim é viver]

eu tenho um fim para a história da casa.

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ela sonhava em morar naquela casinha de telhado inclinado, jardim florido, toda charmosinha, parecia dizer "entra!"; entrou na academia para poder ter desculpa para passar por ela todo dia, odiava a academia, mas ela devia fazer esse esforço pela casa! afinal, se um belo dia aparecesse uma placa de "vende-se" e algum outro lhe tomasse a maravilhosa casinha? sentia tontura só de pensar, sua linda casinha, como poderia, não, não poderia abandoná-la. no trabalho sempre perguntavam de onde ela havia tirado tanta determinação para entrar em forma, estúpidos, mal sabiam que o amor move montanhas...

seu relacionamento com a casa evoluia todos os dias, semana passada havia sonhado com o "casamento", alguém lhe entregava a chave de ouro e lhe perguntava "você promete amá-la, respeitá-la e cuidar dela na saúde ou na doença? em todos os momentos?" seguido por um "sim" com direito a olhos brilhantes. Passou a andar mais devagar para poder apreciar mais o tempo com a adorada, as vezes se pegava olhando entre as grades do portão, logo percebeu que havia algo estranho: nunca via ninguém na casa, não que quisesse outros abusando de sua casa - havia a adotado o pronome sua deliberadamente, mas não sentiu-se tão culpada, afinal, era só forma de dizer... -, mas será que havia mesmo um dono? ou será que os donos, insensíveis, viajaram e deixaram-na só? tinha calafrios só de pensar.

um dia, acordou e quando estava passando em frente a casa teve uma idéia: porque não entrar na casa, só por um tempinho? afinal, nunca tinha ninguém, se agisse como se morasse ali ninguém perceberia, afinal, nos dias de hoje todos estão muito ocupados para prestar atenção em alguém que não seja ele próprio. decidiu estudar a planta da casa, todo dia passaria e quando chegasse na academia desenharia uma parte, e cada vez ia mais longe, chegou um dia que abriu o portão e viu os fundos! mas quase morreu de susto ao ouvir um latido, descobriu que havia um cachorro, como nunca percebera? que família mais estranha! será que se escondiam nos fundos, será que tinham fobia à pessoas?

e foi exatamente naquele dia, sim, aquele! pois então. ela resolveu que era agora ou nunca, fizera sua linda casa esperar tanto! decidiu que estaria sendo injusta e foi. até chegar na calçada da casa, foi arquitetando o que faria, como reagiria se encontrasse alguém, quando finalmente chegou ficou imóvel, paralisada. "preciso me mover, se mova, vamos, o que você está fazendo? vai estragar tudo, vai? vai? ok, relaxe, isso, você ensaio tudo, pronto, viu, nem está sendo difícil.", não poderia deixá-la na mão, tocou o metal frio do portão, foi abrindo, como se cada segundo fossem horas, bem devagar, precisava apreciar cada passo, calculados. o portão rangem, a ferrugem estava consumindo-o, anotou mentalmente para trocá-lo outro dia por um mesmo mais novo - mas será? não, ele era uma raridade, decidiu que aquele som fazia parte da magia da casa e não iria abrir mão de prazer algum. quando se deu por viva estava já quase nos fundos, sentindo o cheiro de grama molhada - espera, como a grama estaria molhada? haveria alguém? entrou em pânico. respirou fundo de novo e se convenceu de que havia tecnologias hoje em dia que poderiam fazer isso sem pessoas por perto. é, devia ser isso, deveria e tinha de ser! continuou o percurso até chegar à uma portinha arredondada e pequena, que nem em "a branca de neve e os sete anões", lembrou de sua infância, será que as crianças de hoje haviam assist..., espera, precisava se concentrar, afinal estava em frente à sua casa, isso. abriu a portinha e caiu de susto, bateu a cabeça e desmaiou. nunca ninguém soube o que a moça havia visto, mas o porteiro da casa ao lado disse que viu uma sombra saindo e carregando algo bem grande pela grama. muito estranho, muito estranho.

->
sabe o que era? ela apenas sentia uma dor no peito. alguém lhe puxava, estava sonhando, sempre sonhando acordada. queria a casa, senti-a no cheiro da grama. e oh, estava molhada, toda molhada. havia pingos em sua face, um barulho engraçado, estava no seu jardim secreto, em sua casinha encantada, um castelo! era o regador, molhando a grama. levantou-se. como entrara ali? a grama estava funda, marcada pelo peso dela. como havia entrado ali? sua cabeça doía-lhe, uma explosão quente, como chocolate para beber no frio, ou doce demais e tonto, ou quente demais, queimara a língua, "outch!". seus olhos brilhavam, o pensamento voava, a dor não acompanhava o brilho, ela estava ali. a casa era dela e de mais ninguém. o aperto no peito, uma felicidade invadia o estômago, um frio ali. levantou-se, dessa vez era diferente, levantou a alma, caminhou bem devagar, empurrando o corpo para a frente, como quem tenta ver mais de perto, e passo por passo, afinal chegou a porta. girou a bela maçaneta e empurrou. fechou os olhos, assim, de repente, queria apagar toda a idéia da casa que tivesse. agora era uma exploradora, e como tal, deveria esquecer as decepções que poderiam vir e apreciar, mordendo os lábios, suspirou e pisou; pisou com o pé direito, nunca entendera porque o direito, mas era melhor que desse certo. foi andando devagarinho, bem manso, tudo era... vazio. sim, vazio. nunca pensara que a casa poderia estar desocupada, sem móveis, sem pintura, sem portas ou paredes, bem como a música do eterno poetinha, na rua dos bobos, número 0. mas quem agoava o jardim? poderia ser o vizinho, ou poderia ser um sistema automático, desses novos que inventaram. como fora tola. mas agora ela poderia ser sua e de mais ninguém. tão sua que de mais ninguém, sim, sua, vazio mas sua. estava fora de si, tão eufórica, tudo aquilo era, como era mesmo, aquele ator falava sempre nos filmes, contudente! sim, ele falara assim " pisar; moer; obtundir; ferir; machucar; magoar; contristar; esmagar; triturar; esmigalhar; amarfanhar. por fim, exaltar e transcender. [grito]", nem ao menos sabia como lembrara daquilo naquele, e só agora percebera como aquela frase era confusa e estúpida, mas tinha uma razão de ser. que nem ela e casa, ali e agora.

era esmagadora sua própria surpresa, nunca indignação. doía-lhe a cabeça, doía-lhe o coração. vazio, vazio, girava e girava. como era possível! não, não era possível e por isso mesmo é que acontecia. porque era fantasia e irreal. um sonho. nunca que moraria numa casa vazia. ela nunca daria fim ao amor à casa, mas pararia ali. pois voltara a si, após tão exaustivo tempo, infinito. sim, nunca um fim, sempre um começo. e agora ela iria começar de novo, com algo real, pois não queria que doesse assim de novo. tola era, pois desistia do mais bonito, dos sonhos. e assim correu para fora, correu para fora do mundo e de seu corpo. sobrou-lhe a alma, essa que caiu em gravidade, em liberdade. e parou. chorou e disse adeus. correu e correu e correu. gritando a poesia mais poética que já ouvira. [não: não quero nada. já disse que não quero nada. não me venha"m" com conclusões! a única conclusão é morrer. - que fim seria melhor que morrer? pois disse o Poeta e se ele diz, assim é.]

Luna
às 18:36

Sexta-feira, Janeiro 7

bu

Luna
às 17:16

Os rostos são os mesmos, iguais
O que mudam são as intenções
Como carros do ano, as versões
Arranhões, as rugas.


Sempre as mesmas caras.Aos quinze conhecia todas. De chato está insuportável... Vê?. Eu tô no porte do Abate, eu tô adulto. Eu tô com a cara do canalha, eu cruzo o viaduto .Eu tô com a barba rala. Eu tranco a cara, eu tranco o carro .Eu torro o saco, eu corto .Eu não procrio, eu não prossigo .Eu prejuízo, eu suicido .Eu precipício.